23/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Lágrimas de Chico Buarque

3 min read
Lágrima é o símbolo da dor, tristeza, compaixão, portanto não é para se envergonhar, como diz a velha frase: “homem não chora”. Quando um compositor tímido, que nunca tinha chorado diante do público, percebe rolarem lágrimas ao falar de tristezas sobre nosso país, isso é inquietante. Chico Buarque assegura que o golpe na democracia já está ocorrendo, e os armados estão integrados, bem com a complacência de muitos. Uma previsão pode estar errada, mas, se for certa, o panorama é sombrio.
Chico foi entrevistado na TV 247, junto com a filha de Zuzu Angel, a jornalista Hildegard Angel, no centenário do nascimento de sua mãe. Zuzu já era uma estilista famosa quando teve seu filho Stuart torturado brutalmente pela ditadura militar em 1971. Poderia ser preso, mas foi massacrado na Aeronáutica, e ainda atiraram o seu corpo no mar. Zuzu escolheu o Chico como um de seus confidentes e amigo das dores e lutas, e entregou a ele um bilhete no qual antecipava seu provável assassinato pelos mesmos militares que tinham matado seu filho. As lágrimas do compositor de “Construção” ocorreram ao recordar histórias dos tempos da ditadura militar sobre a Zuzu e seu filho Stuart que não pode enterrar.
Chico se indigna com a impunidade passada e atual e diz: “Eles se pensam os donos do Brasil, mas não são donos porra nenhuma. Teve generais no passado que tinham dignidade, mas agora onde está a dignidade? Não estão interessados em proteger o povo brasileiro”. São palavras de desabafo, e novas lágrimas rolam ao mencionar o massacre do Jacarezinho, onde foram mortas 28 pessoas sem julgamento. As lágrimas foram pelas mortes e a dor de um sonho, temporariamente, desfeito, com o “Amanhã será outro dia”. Suas lágrimas são as nossas lágrimas diante das mortes da pandemia, da morte de Marielle, que, segundo ele, ficará sem se saber os mandantes.
Chico afirmou que a situação é perigosa, pois o país está tutelado pelo fascismo e o nazismo. Os ataques à democracia aumentaram devido à persistente impunidade, e a palavra impunidade tem destaque no seu pensamento. Assim, o hoje é sequela do ontem, dos anos de ditadura, e o amanhã está ameaçado, daí o desamparo. Em 1976 um caminhão empurrou o Karmann-Guia de Zuzu para fora da estrada, e só em 1998 o Estado Brasileiro reconheceu que ela tinha sido morta e não fora um acidente, como as autoridades apregoaram na época. Chico fez a música “Angélica” em sua homenagem, cujo estribilho é “Quem é essa mulher?”. Zuzu Angel é a Antígona brasileira que escolheu morrer lutando para enterrar seu filho, pois a tumba e a cerimônia fúnebre são expressões da cultura, da humanidade. Ao longo dos tempos, a “Antígona” de Sófocles simbolizou a rebeldia contra o poder autoritário, a luta pelos Direitos Humanos diante do Estado arbitrário. Antígona passou a representar a rebeldia, e escreveram sobre ela Rousseau, Kant, Hegel, Brecht, Lacan, entre outros.
As lágrimas de Chico Buarque de Holanda expressam também a tristeza diante de quinhentos mil mortos pela covid num ato criminoso. Chico é um combatente democrata desamparado, e revela nosso desamparo diante da arrogância cruel dos milhões de armados. Diante de tantas angústias, recordei as palavras do poeta espanhol Miguel Hernández, que escreveu uma carta desde a prisão franquista em 1942: “Voltaremos a brindar por tudo que se perde e se encontra: a liberdade, a alegria, e esse carinho oculto que nos leva a buscar uns aos outros através da Terra”. Caminhamos na construção de um amanhã ou, se for o caso, por um depois de amanhã, onde o povo todo possa se reencontrar com a democracia e a justiça social.

Deixe uma resposta