24/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Lágrimas das depressões

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Em tempos tristonhos, convém aceitar a tristeza, o desânimo, a solidão. Não conheço ser humano que não viveu suas perdas que doem como uma dor de dente. Depressão é um tempo em que tudo está mais lento, frente a uma separação, perda profissional, uma desilusão. As dores e os dissabores acompanham o ser humano ao longo de sua vida. Somos seres dependentes mesmo na imaginação de ser independente, porque em cada etapa da existência, da infância à morte, o desamparo ou a ameaça de desamparo está presente. O desamparo é um sentimento de vazio, uma sensação de fragilidade angustiante. Aliás, o desamparo está no centro da clínica psicanalítica; a arte de viver está nos destinos criativos do desamparo.

As depressões, as maiores e as menores, são intensas, extensas, onde o desânimo domina o espírito. Quem nunca caiu num poço, pode não entender os depressivos, que não vivem acelerados, ao contrário. Diminuem as capacidades de amar, trabalhar, conversar e a energia de viver se esvai, e o desânimo cresce. Diminui a energia sexual, o erotismo e aumenta a vontade de dormir. Algo semelhante ao que escrevo, vivi no meu primeiro ano de Buenos Aires, há quase cinquenta anos. Foi quando comecei o aprendizado da depressão na pele, que durou uns oito meses. Perdi o riso, fiquei sem norte, as lágrimas brotavam do nada, sentia saudades do passado. As árvores de Buenos Aires não eram as do Bom Fim, tudo era estranho no mundo portenho, e aos poucos comecei a gostar dos tangos. Na solidão dos sábados à noite escutava os lamentos de Gardel e de Julio Sosa, e assim me sentia acompanhado. Nesse tempo conheci o desamparo, o imenso buraco, um vazio de sentido, e como era difícil conviver com a solidão. Depressão é uma doença do amor, da falta de amor a si mesmo e ao mundo.
O deprimido não tem provas de amor, as que tem são insuficientes; falta a visibilidade, a fé, é difícil perder a segurança, e a vida se torna insuportável.

Nas depressões, em geral, ocorre uma insuficiência de ausência, a criança não pode ficar suficientemente só em suas brincadeiras. Haveria nos depressivos um excesso de presença – uma função materna espaçosa – e um filhinho de mamãe, que sem amparo desaba. Por outro lado, é possível pensar também que o depressivo não enfrenta o pai, fica passivo diante dele, não se rebela, permanece mais dependente da mamãe. A questão é como passar da passividade à atividade, da humilhação para uma atitude ativa da construção de um novo sentido. Construção do crescimento, do amadurecimento, uma nova estrada. Em geral os depressivos reagem bem ao tratamento, onde a transferência é essencial. A depressão tem crescido, fazendo a felicidade da indústria de antidepressivos. Entretanto lembro o provérbio zulu: “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”. Vivemos em sociedade.

Já no nível social, os sonhadores andam tristonhos, quase já não cantam que outro mundo é possível. Porque, se cada um precisa construir sua vida particular, está também integrado na construção ou destruição da vida pública. Nesse sentido talvez os humanistas estejam meio perdidos, pois, entre tantos perigos virais, suportam aqui os ataques mortíferos dos poderes poderosos.

Escrever é um fermento para aumentar a coragem, e assim sustentar a imaginação do amanhã. No fim de semana, aqui, ocorrem os encontros nas esquinas do Face, que é um espaço de conversas. Um dia, sairemos de casa, voltarão as danças circulares, o abraço, mesmo se for com máscara. Aliás, está tudo invertido, pois agora a gente do bem anda com máscara e as do mal sem máscara.

E o amor voltará a mover o Sol e as outras estrelas, como escreveu Dante. Então o Sol secará as lágrimas, sua luz fará renascer o entusiasmo, e os sonhos serão recolhidos do lixo. A poesia não penetra nas rochas, ela toca a alma dos humanistas, realça as cores, excita a vida, vibra com as músicas que secam as lágrimas.

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