05/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Isolamento de mãos dadas

4 min read

Isolamento de mãos dadas é um paradoxo, pois, estando isolado, como dar as mãos? A resposta passa pelo invisível, porque é dar as mãos na imaginação. A perda da convivência, ou a morte de uma pessoa querida, pode ser insuportável a perder de vista. Cedo aprendi a história de um Deus invisível, e mesmo assim o invisível é difícil. Hoje ocorrem separações temporárias, mas separações, elas não são fáceis, mas ao suportar a perda ocorre um alívio.

A imagem de um Todo-poderoso que não podia ser visto incendiou a imaginação. Escutei histórias de como Abraão questionou seu pai, que fazia deuses de barro. E por rebeldia ele saiu da cidade de Ur numa longa caminhada até a terra de Canaã. Simpatizo com o invisível mesmo depois de percorrer os caminhos das artes e das ciências na adolescência e me afastar das origens. Além do que, nada mais invisível que a ficção e o mundo criado por artistas, essenciais para enriquecer a vida. E o invisível é uma constante no cotidiano da Psicanálise: sonhos, formação dos sintomas, identificações. Dentro de cada um vivem marcas dos pais, avós, irmãos, entre outros. Essas marcas inconscientes na alma- psiquê- se integram na constituição da personalidade. Tudo transcorre de forma invisível, assim como as transferências. O invisível tem efeitos concretos no cotidiano de cada ser humano, a nível da psique, alma.

O amor, por exemplo, requer provas de amor devido a sua invisibilidade. Dizer que ama nem sempre é suficiente, é preciso provar que se ama. O amor é vivo, ele nasce, se desenvolve e pode diminuir e morrer, por isso precisa ser renovado. Faz pouco, vi uma criança se aproximar da mãe para beijá-la, e esta o afastou, pois estava gripada. A mãe magoou o menino, e ela precisou pedir desculpas, se explicar para acalmar o filho. Somos sensíveis ao sentimento de desprezo, daí as provas de amor que geram alegria.

Lutar contra o isolamento, diminuir a solidão, e até reaproximar-se de velhas amizades, vem ocorrendo. Vivo e escuto histórias emocionantes da reconstrução de pontes passadas, bem como frustrações em algumas tentativas. Estamos conectados, pois as palavras entram nas redes e circulam, pois se buscam, e podem dançar.

Às vezes, imagino escrever sobre algumas palavras especiais como: labirinto, leveza, separação, ponte, entre outras. Ponte é a passagem de um lugar a outro; pontes que passam por cima de rios, pontes naturais, e há pontes invisíveis. Tenho a fantasia de um dia ser um engenheiro de pontes invisíveis. Pontes fabricadas por palavras baseadas em boas fundações. Admiro as palavras que tocam a alma, mas nunca se sabe quais são as que tocarão.

A expressão “isolados de mãos dadas” da “Solidariedade” tocou alguns leitores e me tocou. É uma forma que temos hoje para expressar o amor pelas palavras que se unem em pontes imaginárias. São pontes de ida e volta, e assim ocorrem os movimentos na lentidão do isolamento.

As mãos dadas são também para expressar nosso amor ao Brasil. Um país comandado pelo gabinete do ódio, pelo amor ao ódio, que divide quando deveria unir. O país foi atacado pelo fanatismo a medicina, as ciências, a saúde, a vida. Enfim, se os conhecimentos de como combater o coronavirus avançaram, já a resistência contra a crueldade é mais difícil.

Aos poucos aprendemos, é como uma nova viagem, chegará um dia que a separação física cessará. Há leituras, filmes, diversões, risos para aliviar o peso do confinamento. O caminho é longo, mas estamos caminhando de mãos dadas. A poesia da luta continua.

A cidade está no “pause”.
Parar para pensar,
parar para…
parar…
par…
ar.

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