16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Insubmissão e humanidade

12 min read

Da minha aldeia vejo o quanto de Terra se pode ver no Universo

Por isso a minha aldeia é tão grande

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura”

(Alberto Caeiro)

 

Não sei se todo mundo tem a lembrança da primeira noção de que a morte existe, mas eu me lembro perfeitamente  da minha. Tem gente que acha a infância uma fase linda e idílica, teimo em não concordar. Porque é o momento que você se sente existindo e tudo, todos os sentimentos, inclusive o estranhamento a vida e perguntas que depois você descobre que nem seus pais podem responder, te atormentam. As brincadeiras e as fantasias, para mim pelo menos, eram uma forma de não pensar naquilo que nem eu, nem ninguém, tinha respostas. Um interlúdio.

Eu tinha uma cachorra, a Petit. Ela acabou cruzando com o cachorro da vizinha e eu via sua barriga crescendo, sabia que em breve teríamos cachorrinhos. Petit pariu debaixo da cama. E eu, que nada sabia sobre a ferocidade das mães, ao protegerem seus rebentos,  mesmo quando são doces, como era Petit, quis pegar um dos filhotinhos recém-nascidos e por pouco não levei uma mordida. Um adulto me explicou que enquanto eles fossem pequenininhos, era para deixá-la amamentando em paz. Mas minha vontade era tão grande de pegar um filhote que desobedeci. Fui devagarzinho para a toca, e vi que havia  um filhote a parte dos outros. Sozinho, largado num canto,  enquanto os irmãos mamavam avidamente Senti um misto de pena, pelo abandono do bichinho, de alegria , porque poderia  ver e acariciar o filhote e uma certa raiva da Petit, como se ela estivesse excluindo um filho da ninhada por não gostar dele. Então me aproximei devagar, ela não rosnou e peguei esse filhote. Só que alguma coisa estava errada. Fiz carinho, ele não se mexia. Estava rígido. Tentei abrir os olhos e só vi opacidade. Tentei colocar em pé e ele caía. Ele permanecia imóvel.

Chamei meu pai , nem liguei que podia levar uma bronca , mostrei o cachorro e perguntei o que era. Eu deveria ter uns quatro anos, porque minha irmã era bebê e a Petit foi me dada exatamente pra aplacar meu ciúme. Meu pai,  gravemente, do jeito que mantém até hoje quando quer falar de coisas sérias, me colocou sentada na janela. Eu era tão pequena que minhas pernas passavam pela grade de ferro e eu ficava balançando-as. Nervosa, queria uma resposta  e aí veio uma explicação que nunca vou esquecer. ”Não tem jeito filha, ele nasceu doente,  não tem mais conserto, isso que é morrer”. Aquilo bateu forte em mim e lembro de ter chorado. Porque mesmo não entendendo muito bem, se isso aconteceu com o cachorrinho, acontecia com todo mundo. Achei injusto. Porque eu mal estava me acostumando com a vida, que sempre me causou estranheza e descobria, como já escreveu Clarice:” que também se morre”. Comovido com minhas lágrimas, o céu estrelado, ele apontou pra cima e falou: ”Ele agora virou aquela estrela ali, tá feliz.” Fiz de conta que acreditei. Mas no fundo senti uma enorme pena do meu pai, porque o ceticismo nasceu comigo e achava realmente  que ele cria naquilo. Nunca que um cachorro ia virar estrela assim, sem mágica, sem nada. Esse foi o dia que descobri que a vida tinha fim.

Aos poucos fui me acostumando a essa realidade. E com a idade fui vendo os mais velhos da família seguindo o curso natural da vida, outros indo mais cedo do que deveriam, mas há de se encarar. Nunca fui religiosa, nunca tive a experiência do religare, por mais que tenha me esforçado. Não creio em vida após a morte, mas claro que é assunto instigante. Como diz a sabedoria popular: ”Ninguém voltou para contar”. Eis que  outro dia caí num documentário da Netflix cujo tema era: pessoas que passaram pela experiência da morte por alguns minutos e voltaram.  Um caso que me despertou a atenção foi o de uma gringa, que praticava canoagem com o marido e estava atravessando  um rio perigoso em algum país da América Latina. Sei que apesar da perícia dela, não era amadora no esporte, acabou indo pelo outro lado do rio e foi jogada muito longe. Essa moça passou horas debaixo d’água com grande parte dos ossos quebrados. E ela falou que naquele momento, que não conseguia se mover, nem respirar,  ter visto os avós, sobre uma luz aconchegante e se lembra da hora  de um deles dizer após abraçá-la :”Ainda não é a sua hora”. Foi encontrada ,rolaram  varias coincidências como uma ambulância estar passando naquele lugar ermo quando retiraram ela do fundo e tudo foi documentado. Sua longa recuperação para readquirir os movimentos e tal . Aquilo me intrigou, porque eu estive perto da morte. Muito perto. Tive uma pneumonia, logo depois da minha filha nascer, na verdade já era sinal da artrite reumatoide, ainda não diagnosticada. E a bactéria me derrubou. Duas semanas de UTI, com o pneumologista, a infectologista e meus pais tendo certeza que dali eu não escaparia. Sono profundo, soube depois que passei por vários procedimentos invasivos, tudo que vocês estão vendo acontecer nas UTIs agora, passei por coisa semelhante.

Eu fui caindo em mim de uma forma muito estranha. Eu achava que estava numa casa dos anos 70, com tacos de sinteco, e grandes samambaias choronas penduradas no teto. O que me incomodava era o barulho incessante do pi, pi, pi. Aquele barulho que me fez ter consciência de que era um monitor de UTI. Consegui abrir os olhos, vi que estava num lugar asséptico, com uma velhinha nas ultimas ao meu lado. Eu estive a a beira de uma septicemia. Mas assim como a Petit , em dado momento, lembrei que tinha uma cria. E que precisava viver. E surpreendentemente, para espanto de todos, principalmente do pneumologista, fui ganhando força. A minha ferocidade era comigo mesma. Uma parte de mim lutando com a outra. Mas não vi luz, não vi meus avós, porque ate minha experiência de quase morte é fuleira , D’us não capricha no meu roteiro, é incrível. Ao invés de tuneis, abraços saudosos dos antepassados, festas do Grande Gatsby  eu caí num cenário daquela série da década de setenta-oitenta, Ciranda Cirandinha. Faltou só a Lucélia Santos de polaina e collant, dançando jazz  ao som de Pai, tocada e cantada pelo Fabio Junior, o pai do Fiuk. Vai que cada um tem o que merece né?

O fato é que cá estou para contar a história. Acredito que viva, embora muitas vezes ache que estou penando em algum umbral, tal a nossa dose diária de surrealismo. Tudo isso me veio a mente porque encontrei, em uma caixa  antiga de livros, uma edição de 1945, que ganhei de presente em 1994, do livro Novos Contos da Montanha do Miguel Torga. Esse autor, que tanto prezo, nasceu numa aldeia transmontana, vindo de uma família muita humilde. Seu verdadeiro nome era Adolfo Correia da Rocha. Como era normal acontecer em famílias com  poucos recursos, aos 10 anos saiu da casa dos seus pais e foi trabalhar num casarão de gente rica no Porto. Era obrigado a usar roupa branca, polir corrimão, ser garoto de recados, todas essas explorações de trabalho infantil que infelizmente conhecemos tão bem nesse nosso Brasil.

Permaneceu um ano nessa função. Até ser demitido. Motivo: INSUBMISSÃO. O outro destino para um garoto pobre , naquele inicio do século XX, para levar uma vida minimamente decente, era entrar para a vida religiosa. Foi para um seminário, onde aprendeu latim, português, literatura, filosofia. Dois anos depois avisou ao pai que essa vida não era para ele. Hierarquia, dogmas, não era esse o seu caminho.

Em 1920 finalmente veio morar no Brasil, na fazenda de um tio em MG e esse tio teve sensibilidade para entender que,  pode não ser via de regra, mas insubmissos tendem a ser inteligentes. Ele fez o ginásio e o secundário em Minas e o tio, pelos 5 anos que ele trabalhou na fazenda, custeou seus estudos de medicina na Faculdade de Coimbra. O primeiro doutor da família, mas que nunca, nunca, nunca , abandonou suas raízes. Além de exercer a medicina, atendendo sempre os mais pobres, pessoas sem posses, em seu pequeno consultório, foi no mundo das letras que se encontrou. Como ele escreveu no prefácio dessa minha edição: ”Poeta, prosador, é na letra redonda que tem descanso as minhas angustias”

Navegou por todas as formas literárias, mas a que mais me encanta, talvez por eu achar o gênero mais difícil, é o conto. Seu pseudônimo é uma homenagem a Cervantes (Miguel) e Torga é uma planta que nasce nos lugares mais secos de Portugal. Ela desafia as possibilidades e floresce no meio das pedras. Mais uma vez a palavra ferocidade.

Torga é antes de tudo um humanista. Nesse livro em questão, encontramos personagens com defeitos e qualidades, capazes dos gestos mais vis, mas também dos mais ternos e generosos. Ele dá vida a pessoas simples, que bem poderiam ser de sua aldeia. Não  sei de quem é a autoria dessa frase, mas me lembro de um professor proferi-la numa aula, o que me levou a usar a epígrafe do Caeiro. Quanto mais particulares formos, mais universais seremos. E da aldeia do Torga, dá pra se ver o mundo.

Tudo isso na verdade é uma introdução para falar de um dos contos, na minha opinião, mais singulares da Literatura Portuguesa e que inicia o livro. O Alma Grande. A primeira frase do texto é:” Riba Dhal é terra de Judeus”.  Uma pequena aldeia, que por motivos óbvios finge assimilar o catolicismo, onde o padre de quando em quando vai visitar, para ensinar o catecismo, falar sobre o Novo Testamento, ensinar o Pai Nosso, a Ave Maria. No entanto, como diz o autor: ”Na destreza com que se desvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar, que por detrás da sagrada Cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Na hora da morte porém, que é o momento que já nenhum segredo importa, a comunidade é tomada pela aflição de que o doente , na extrema unção, faça a confissão de sua verdadeira crença. E aí que surge o personagem que dá o titulo ao conto: O Abafador. Desses servos de Moisés, palavras do autor,  o maior de todos era o Alma Grande. Quando alguém adoecia e sabia-se que a morte era iminente, antes que o padre aparecesse, o Alma Grande era chamado. Ele afastava as pessoas do quarto do doente, passava o braço pelas costas e aplicava o joelho sobre o tórax, ate asfixiá-lo. Era um acordo tácito. Não falado. Mas sempre que havia um moribundo,  a preocupação de salvaguardar a comunidade ia além de todo e qualquer princípio e o Alma Grande era chamado. Torga pinta-o como um homem grande, forte, de nariz adunco, solitário, que morava no alto de uma ladeira.

Um dia, o Isaac, um rapaz jovem,  adoece. Sua mulher Lia faz de tudo para que ele melhore de uma febre altíssima. O médico da comunidade  diz que não vai poder fazer nada, quinze dias febris, a morte era certa. E a Lia, chorosa,  pede para que o filho deles, o pequeno Abel, vá chamar o Alma Grande. O menino sobe a ladeira e diz que a mãe quer vê-lo, porque o pai está doente. Na inocência, Abel pergunta :”Mas o que o tio vai fazer com ele?”. Alma Grande, homem de poucas palavras, segue em silencio. Na casa, as pessoas estavam na sala, a Lia desolada e o Abafador adentra no quarto do doente. Mas aí é que tudo muda :”Quando o Alma Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo estendido. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido a seiva, corajosamente defendia o resto da muralha (…) De nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, a solenidade de tal hora.” Mas por desgraça, o Alma Grande não conseguia enxergar aquilo. Insensível aos mistérios da vida,  ele avançou para o leito, com as mãos ao pescoço, com o joelho a arca do peito”, para depois se retirar com sua missão cumprida. 

E aí o combate se inicia. O embate entre dois homens. Um a saber que ia matar, outro a saber que ia morrer. Por mais que o Isaac gritasse “Ainda não”, o Alma Grande queria cumprir sua missão. Nessa situação, a porta do quarto se abre. Era o Abel. Ele , o Abafador, não queria testemunhas. “E sem coragem para encarar os arregalados e aflitos olhos do pequeno, que o varavam, silenciosamente, saiu. Atravessou a sala cabisbaixo, longe da grandeza trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida e a vida não lhe dava grandeza”.

O Issac se curou, os dias seguiam normalmente, mas “Só os três sabiam que o drama fora mais negro e mais profundo”. O Isaac queria vingança, o Alma Grande pela primeira vez sentiu medo e o Abel, via apenas a angústia de não entender. Ate o momento que Isaac fez uma tocaia para o Abafador , e sendo mais novo e mais forte, com os olhos implacáveis que viu no Alma Grande na hora da agonia, asfixiou-o. O Abel , que tinha seguido o pai, assistiu a tudo atrás de um penedo. E assim Torga termina:” E, com mais um estertor apenas, estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, O Alma Grande já não sentia medo , e a criança compreendera, afinal”.

Li muitos artigos sobre esse conto, alguns bem equivocados falam sobre eutanásia, outros do Alma Grande como salvaguardor daquela comunidade, mas não é sobre isso que quero falar. É sobre o Alma Grande, sua função e o desprezo pela vida .Muitas vezes, especialmente no episódio de Manaus, com pessoas morrendo asfixiadas por falta de oxigênio, pessoas amarradas as macas por falta de sedativos e o genocida que nos governa conseguindo fazer piada e achar graça disso tudo, esse personagem me veio a mente. Como eu sempre falo, ele tem um verdadeiro apetite por cadáveres. Assim como o Alma Grande, a vida não lhe traz grandeza.

Torga não era religioso. Era humanista. Na sua introdução, pede a nós leitores, que não julguemos seus personagens. Só que além de escritor, libertário, ele era médico e honrava seus juramento. Respeitava a vida. Falava de sua gente que não tinha voz. No prefácio dessa edição, ele escreve sobre sua ida a cidade natal: ”Encontrei tudo como o deixei ano passado. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero”. Se eu não tivesse indicado  vocês teriam certeza que foi algum escritor falando desse Brasil distópico de 2021.

Eu respeito a vida. E tenho lisura diante da morte. Não acredito em D’us e todos que me conhecem bem sabem, mas creio , ainda, no humano. Existem pessoas que se esforçam para ser gente, no sentido mais bonito da palavra.. Porque se eu não pensar isso prefiro parar de viver. É necessário um pouco de esperança.

Estamos atravessando uma tempestade sem fim. Desculpem a melancolia do texto, mas perdi gente amada e próxima essa semana, algo que poderia ser evitado. E revolta e angústia são péssimas companheiras.  Termino esse texto com  algo que constatei hoje. O nosso novo ministro da Saúde, do qual minha única opinião é o fato de integrar esse governo vergonhoso,  portanto cúmplice desse horror, tem o sobrenome de Queiroga. Queiroga e Torga são as mesma planta, mesmíssima. A mudança de nome é regional. E ambos, além dos sobrenomes que se assemelham , são médicos. Mas as coincidências acabam aí. Entre um insubmisso anti-salazarista e um capacho de um genocida não tem nem o que dizer.

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