18/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Eu e Luiz, Luiz e eu

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Relutei bastante em ler o livro O ar que me falta, do Luiz Schwarcz. A depressão do autor e suas múltiplas ramificações, tema central da obra, empilham mais peso na conjuntura em que vivemos. Não é nada fácil enfrentar o Brasil de hoje. Sair à rua é vivenciar um laboratório tóxico a céu aberto, que expande um vírus ardiloso e, não raro, letal. Como não se deprimir sabendo que é brasileiro um em cada quatro mortos por Covid-19 no mundo? Para quê, pensei, vou acrescentar a este quadro coletivo sombrio a história de um repertório de angústias pessoais?

Aos poucos, fui mudando de ideia. Resenhas de gente que respeito mostraram que havia elaborações no texto que valiam uma visita. Já estou quase na metade do livro que, confesso, me deixa meio atordoado e hipnotizado. Como dizia uma amiga, é desses livros que nos leem. Ainda tenho chão pela frente, mas quero dividir com vocês algumas impressões preliminares.

Schwarcz começa a história narrando uma experiência perturbadora. Estava no pico de uma montanha, prestes a esquiar, prática que adora. O ar puro dava-lhe uma sensação inebriante, perspectiva de prazer sem conta. De repente, o barato oxigenado transformou-se em asfixia, a falta de ar transitou para uma profunda melancolia, o presente tornou-se insuportável. Como pode a satisfação virar tão rapidamente o lado do disco e dar passagem ao seu oposto? Foi aí que identifiquei a primeira convergência.

No final dos anos 80, estava com a família num hotel em Friburgo, região serrana do Rio. Nada com que me preocupar, todo o tempo para me dedicar ao ócio sem culpa. Era véspera de Natal e o hotel serviria uma ceia portentosa. Quando nos preparávamos para o banquete, meu estômago trancou. Uma fantasia misteriosa transformou o ambiente despreocupado e faminto num teatro do absurdo, personagens ameaçadores e espectros inquiridores. O máximo que consegui comer foram torradas e, a partir daquele momento, começou uma longa jornada em busca de sentidos e explicações que, a rigor, não acabou.

Como eu, Schwarcz descende de emigrantes judeus da Europa. Rotas diferentes, mas com semelhanças. Seu pai, atormentado por um episódio trágico com o avô na Segunda Guerra, era machista juramentado. No meu caso, o pai machista pressionou a mãe a não seguir carreira profissional. Houve chantagens, discussões, certamente ameaças de separação (pecado mortal para aquela geração; desquitadas eram vistas como pouco menos do que prostitutas, mulheres “disponíveis”). A resistência da mãe, enfim vitoriosa, valeu a sobrevivência da família depois da morte do pai. Os arranjos que resultavam em casamentos infelizes fazem lembrar uma pensata sarcástica do Millôr Fernandes: “Quando vejo a maneira como certos casais conduzem suas relações, me vem logo um pensamento: Deviam ser obrigados a usar cinto de segurança”.

Colocados em posição de filhos-mostruário, perfeitinhos e condenados a alguma forma de ascensão social, eu e Schwarcz seguimos um roteiro cravejado de silêncios, olhos tristes e solidões. Não se trata de condenar os velhos, a vida de emigrante não foi fácil e era natural desejar que a prole escapasse daquele destino. No entanto, o custo de tanta e tamanha falta de diálogo foi alto. Ele jogava bola sozinho dentro de casa, chutando-a contra a parede e narrando grandes defesas aos berros, como se fosse a final de uma Copa (quando saiu para as quadras reais, libertou-se). Eu joguei futebol de botão sozinho, igualmente narrando partidas épicas, e criei um mundo paralelo, de porta fechada (literalmente) e objetivos definidos sem muito diálogo e informação. Demos um jeito na vida, a liberdade possível veio com a palavra. Como diz o ditado inglês, preparamos o pudim com os ingredientes disponíveis. Não dava para ser chef naquelas cozinhas.

Não sei se, como Schwarcz, acumulei culpas por não conseguir consertar o que havia de torto na história pessoal … dos outros. A velha culpa judaica é danada. Ele fala de uma foto antiga, ainda moleque, daquelas posadas para fotógrafo profissional. Sorriso ensaiado. Também tenho foto parecida. Sou quase capaz de lembrar quando foi tirada, numa sala um tanto decadente no centro da cidade. Sem a menor vontade de posar, sorrindo de dor. Acho que ambos saímos do padrão desejado pelos mais velhos e, contadores de histórias, acabamos inventando a nossa própria. Sem ofender a memória, mas recusando torná-la tirana.

Recomendo o livro.

Um abraço. E coragem.

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