14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Em Nome das Vítimas

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Meu nome é Yoram. Cheguei há poucos dias. Minha última lembrança é de estar olhando pela janela do ônibus. Depois veio um grande vazio e súbito me vi aqui. Ainda estou atônico com o que aconteceu. Percebi que outros que estavam comigo, chegaram ao mesmo tempo que eu.

Nasci em Israel. Minha família está aqui a muitas gerações. Tinha a idade do meu país. Estava casado com dois filhos. Um deles servindo no exército. A situação econômica estava me preocupando muito. Desde o inicio da segunda Intifada, as coisas haviam piorado. Meu negócio no centro de Tel Aviv já não ia bem. A queda no turismo estava sendo muito prejudicial aos negócios. Pela primeira vez tive de despedir dois empregados. Não sei o que farão agora sem mim.

Eu tinha muitos amigos árabes e palestinos. Nossas famílias costumavam se visitar durante as festas. Éramos amigos porque até onde podíamos lembrar, nossos avós e nossos pais o foram. Da mesma forma nossos filhos o são. Com toda esta confusão já fazia algum tempo que não nos falávamos. Vez por outra eu ligava pelo telefone perguntando se necessitavam de alguma coisa. Sempre me diziam para não me preocupar que tudo logo passaria e as coisas voltariam a ser como eram antes.

Ao andar por aqui encontrei um palestino de nome Mohamud. Conversamos e percebemos que daqui para frente tudo seria diferente. Eu nunca fui muito ligado à política. O que sempre me importou foram às propostas para melhorar o país. Achava que não era preciso anexar os territórios. Prestei durante muitos anos meu serviço militar anual em Tul-Karem.
Adorava o café com hortelã e o mingau doce feito com leite de cabra. Sempre achei que Israel poderia prosperar sem precisar manter os palestinos sob ocupação.

O meu nome é Mohamud. Cheguei por estes dias. A última coisa que lembro é a de estar andando pelo centro de Gaza.. Escutei o som de um helicóptero e em seguida um som como o de um assobio. Depois foi um grande vazio e me vi aqui. Não compreendo porque eu. Sei que todos os dias chegam outros. Acho que não deveria ter escolhido aquele dia para buscar emprego.

Nasci em Gaza. Minha família está aqui a muitos anos. Contam muitas histórias sobre ela. Dizem que vieram do que hoje é Yafo. Ajudaram a muitos refugiados judeus que chegavam à Palestina quando os Ingleses ainda estavam por lá. Acreditavam que seria criado um único país para judeus e palestinos. Veio a guerra e eles tiveram de deixar sua casa. Tiveram sorte de não ter ido parar num campo de refugiados. Em Gaza receberam ajuda das muitas famílias de judeus que haviam ajudado.

Eu estava desempregado a mais de um ano. Tinha acabado de me casar e minha esposa estava grávida de nossa filha. Com o inicio da Intifada os israelenses passaram a acreditar que todos os palestinos poderiam ser terroristas e me impediram de continuar trabalhando em construções. Eu tinha muitos contratos. Minha família nunca perdeu o vínculo com a Palestina.

Quando andava por aqui encontrei um israelense de nome Yoram. Começamos a conversar e percebemos que no lugar onde estávamos não havia mais retorno. Todos os nossos seres queridos, nossa família, amigos, tudo com o que sonhamos tinha se acabado para sempre.

Nem eu nem ele nos importávamos com a política. Eu achava que tudo isso ia acabar logo. Os líderes encontrariam uma fórmula para se entenderem e a vida poderia voltar ao normal. Achava que finalmente meu povo teria seu país e finalmente eu poderia dizer com orgulho, sou cidadão da Palestina. Eu era a favor de dois estados mas como a maioria de nós, não era atuante em nenhum grupo político.

Nunca mais voltaremos a olhar o mar. Nem o céu azul do mediterrâneo. Nossa terra agora é parte do passado que ficou para trás. Da mesma forma o somos nós. Sabemos a falta que faremos para nossas famílias mas não existe nada que possa nos levar de volta. Fomos mais duas vítimas desta guerra que está matando a todos nós.

Não sabemos do que nos culpam. Apenas não digam que estávamos na hora errada, no lugar errado. Porque lá era o nosso lugar e a hora era aquela. Talvez a hora de termos tido um minuto a mais para gritar bem alto: Parem com esta guerra. Queremos viver livres como cidadãos de dois estados. Em paz para curarmos as feridas e nos reconciliarmos. Vocês nos tiraram nossas vidas mas não destruíram nossa esperança. Ela é maior do que vocês.

Lamentamos por cada um que chega por aqui. Eles são o resultado de seu fracasso como líderes. Eles são a expressão de sua incompetência para terminar com esta barbárie. Não permitam que mais vidas sejam ceifadas em nome de sua teimosia.

Escutem ao menos o pranto dos que não podem mais estar presentes entre vocês. Negociem já, e tragam aos que ainda vivem a paz, agora.

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