16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Do luto à luta

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Do luto à luta é uma ponte de travessia lenta. O luto é por mais de quatrocentos mil mortos, entre os quais o humorista Paulo Gustavo, que mobilizou o País. Mais um que poderia estar vivo e morreu pelo atraso na vacina. Sua morte aumenta o mau humor que se vive em tempos de medo gerados pela pandemia e o desgoverno. Luto também da idealização de um país que veio progredindo desde o final do século passado, com admiração crescente no mundo. Estamos de luto da imagem de um Brasil alegre, que tinha diminuído as injustiças sociais, abrindo as portas da universidade para negros, índios e pobres. O país do futuro se transformou no país da morte com uma classe dirigente que é um Robin Hood ao revés: tira dos mais pobres, da cultura, da natureza, para dar aos mais ricos. O luto é uma sombra dos mortos que traumatiza a gente e pesa, pesa muito, e já se anuncia um inverno ameaçador com aumento de mortes. Lágrimas secas não lavam a alma, há uma seca de ideias, de movimentos, há perplexidade.
Luta é um leque que começa a se abrir, mas ainda é incerto. A palavra luta tem muitos sentidos ao longo dos tempos, e lutar é também manter o ânimo contra as tendências depressivas. Lutar agora pode ser um aumento de conhecimentos, que cada um se pergunte que país é esse chamado Brasil. Pensei nisso agora, pois nesta semana escutei um conhecido dizendo que não têm interesse em saber mais sobre este país. Disse que gostaria de saber sobre a China, mas não o nosso passado. Questionei os porquês, disse que ser brasileiro faz parte da identidade de cada um, pois integra as nossas identificações. Um historiador me disse que o Brasil não deu certo, nem dará, na sua visão cética. Tento, aos poucos, ler e conhecer nossas raízes, e entre os livros que me ajudam está o “Sobre o autoritarismo brasileiro”, de Lilia Moritz Schwarcz, onde a autora destaca que o país não é tolerante e pacífico na sua História. E tem revistas como a “Carta Capital”, a “Cult”, e a conversa semanal do cientista Miguel Nicolelis no “El País”. As transformações passam tanto pelo conhecimento como também por iniciativas de como a gente pode imaginar um outro amanhã.
Do luto à luta passa pelas lágrimas que lavam a alma, por isso chorar alivia, os choros começam cedo na vida. Os sorrisos também lavam a alma, assim como os risos e ambos faz bem à saúde. Lágrima e sorriso convivem, tanto que um dia a lágrima se encontrou com o sorriso e disse: “Eu te invejo porque vives sempre feliz”. O sorriso respondeu: “Engana-te, pois muitas vezes sou apenas o disfarce da tua dor”. Pode parecer um paradoxo a convivência do sorriso e da lágrima, mas uma das definições do humor é ser um sorriso entre lágrimas. O humor é um paradoxo em que convivem alegria e tristeza, criando uma forma de ver o mundo entre o trágico e o cômico.
A luta passa por acreditar na dignidade, na fraternidade, amar a vida, as artes que tocam a alma e a elevam. Do luto à luta é uma ponte que precisa de paciência e persistência, pois o País vive um autoritarismo com máscara democrática. Os poderes têm liberdade para matar (chacina do Jacarezinho), vender remédios ineficazes, desprezar as vacinas e o distanciamento. Do luto à luta é o amanhã que vai sendo construído, lentamente, com conhecimento e coragem. Do luto à luta caminhamos.

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