03/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Diga Não

3 min read

Como é difícil dizer não. Quem tem filhos sabe bem disso. Quantas vezes nos arrependemos de não ter dito não? Por isso as campanhas contra as drogas que utilizam este jargão são mal aceitas. Somos quase sempre compelidos a dizer sim. Quando alguém diz não, é preciso respeitar.

Ontem 27 pilotos israelenses disseram não. Assinaram um manifesto onde afirmam que vão se negar a atirar contra a população civil palestina. Um ato de coragem com conseqüências imprevisíveis. Os pilotos israelenses dentro do “ranking militarista” de Israel, são tidos como uma elite idolatrada.

Eles não foram os primeiros soldados a se manifestarem contra o que chamam de ordens ilegais. Várias centenas já assinaram manifestos semelhantes se negando a servir nos territórios ocupados. O que causou espanto, foi que pela primeira vez, membros da elite se fizeram ouvir.

Todo exército está baseado numa rígida disciplina. É preciso que seja assim. Quem tem maior hierarquia dá as ordens. Quem tiver menor, obedece. No exército não se discute, por que numa situação de enfrentamento uma discussão pode significar a vida ou a morte de muitos.

No exército de Israel não é diferente, porém um soldado pode exigir que a ordem seja dada por escrito. Isto é uma garantia para ele, de que obedeceu exatamente o que seu comandante ordenou, mesmo que tenha sido uma ordem com a qual ele não concordava. É claro que em determinadas situações não há tempo para isso, mas a norma existe.

Quando os comandantes militares ordenam que um piloto atire contra determinado alvo fixo ou móvel, onde existem civis que possam vir a ser atingidos, esta é uma ordem que causa um dilema ético e moral. Nem sempre é possível saber com antecedência onde o alvo vai estar. Muitas vezes esta informação é confirmada quando o avião já está no ar e a caminho de executar a missão. O piloto tem de se defrontar então com sua obrigação de cumprir a ordem, ou se negar e sofrer as conseqüências (normalmente corte marcial e aprisionamento).

O manifesto dos 27 pilotos põe em cheque este dilema. De um lado uma estrutura que se baseia numa formação consagrada há séculos, através da qual o próprio Estado de Israel deve sua existência, seu exército, e do outro os preceitos de moralidade que através do mesmo tempo, foram os alicerces do judaísmo, contidos na Torá.

Todos os valores e preceitos que ditaram nossos profetas estão sendo colocados à prova. Cada dia a mais em que permanecemos como ocupantes de uma terra que pertence a outro povo, é mais um dia em que vamos continuar nos defrontando com nosso passado e tirando de nossos filhos o futuro de uma vida em paz em nossa terra.

O manifesto dos pilotos é mais um alerta para a sociedade israelense de que ela está muito doente. O militarismo que sempre se confundiu com a própria sociedade está dando mostras de que as coisas já chegaram ao seu limite. Não somos invencíveis, e estamos metidos numa guerra que não vamos vencer. A ocupação não vai durar para sempre e as vidas que se perdem são um tesouro que nunca mais poderá ser reposto.

Esta geração de líderes não é capaz de se reencontrar com seu povo. Permanecem fechados em seu mundo onde paira a iminência da destruição. Por isso atacar, matar e assassinar são os únicos meios de se manter alertas e principalmente de manter o poder. Esta lógica belicista dos políticos generais é uma das principais causas de todo o problema e nossa maior vergonha.

Um novo ano chega para o povo judeu, 5764. Mais um ano em que os desejos de paz se renovam. Mais uma vez continuamos aqui a dizer que neste ano possamos acabar com o sofrimento dos dois povos, aclamar o surgimento de um Estado Palestino e celebrar a conciliação entre nós.

Deixe uma resposta