25/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Dia a Dia

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Hanan e Samir nasceram no mesmo dia no Hospital Hadassa de Jerusalém. Um, filho de casal Israelense, outro, de palestinos. No hospital foram tratados da mesma forma. Dentro do Hadassa todos os pacientes são tratados como iguais, e o seu corpo médico tem uma única preocupação: preservar a vida.

Hanan foi recebido em casa com festa em um bairro de Jerusalém. Seus pais há muito esperavam ter uma criança. Era o ano de 1988. Israel ainda estava no Líbano, mas era uma guerra distante.

Samir também foi recebido com muita festa em Hevron. A família preparou um grande banquete para o mais novo membro da hamula. Na cidade a vida era tranqüila, não fosse a presença de colonos judeus a lembrar que viviam sob ocupação.

As duas crianças cresceram vivenciando os fatos, que dia a dia afetariam suas vidas para sempre. Hanan era parte do povo que ocupava um território. Samir vivia sob esta ocupação. Nenhum dos dois entendia ainda de política, mas a vida trataria de ensiná-los. Junto com o seu nascimento, nascia à primeira Intifada que terminaria em 1992.

Em 1993 era assinado o Acordo de Oslo. A tão sonhada paz, parecia próxima. A vida em Israel e nos territórios ocupados recebia uma lufada de otimismo. O entendimento, enfim era possível. Israelenses e Palestinos se propunham a conviver lado a lado, independentes e em harmonia. As crianças já estavam com 5 anos.

Palestinos reconheciam o Estado de Israel, e israelenses o direito deles de terem sua nação livre e soberana. Pela primeira vez surgia um governo palestino conhecido como Autoridade Palestina. Sem dúvida as coisas estavam melhorando muito. Seus pais podiam passear por todo lado, sem serem molestados. Os dois povos pareciam se entender.

Quando chegou a ano de 2000, todos os habitantes da terra saudaram o ano como sendo a virada do século (que de fato seria apenas em 2001). Todos estavam felizes por estarem presentes a uma data tão significativa. Israelenses e Palestinos, mesmo não adotando o calendário da era comum, presenciaram as festividades ao redor do planeta e dos cristãos na Terra Santa.

Hanan e Samir tinham agora 12 anos. De um dia para o outro seu mundo viraria de ponta cabeça. Depois de uma visita ao Monte do Templo realizada por Ariel Sharon, tinha inicio a Segunda Intifada. A esperança foi sufocada, a harmonia esquecida, a convivência pacífica transformada em beligerância, e a paz jogada para um canto escuro.

Samir já com 14 anos compreendeu o que significavam aquela gente estranha que morava em sua cidade, protegida por soldados, e rodeada por tanques. Para poder ir a sua escola, era preciso não haver toque de recolher. Mesmo assim, ao invés de 10 minutos, agora eram necessária 2 horas. Colocaram Postos de Controle entre sua casa e sua escola.

Hanan com a mesma idade já compreendia o significado do medo e da apreensão de seus pais. Principalmente depois de um atentado quando ele, se encontrava na rua. Não queriam que ele tomasse mais o ônibus de sempre. Precisava levar consigo um celular para contatar com eles em qualquer emergência. Passear com os amigos, nem pensar. Nem imaginava que seus pais o incentivariam a jogar vídeo game, ficar assistindo TV, ou ficar no seu computador. Mas isto estava acontecendo com todos os seus amigos.

Samir resolveu participar de uma brincadeira perigosa, atirar pedras nos tanques. Pensava que fazer isso ajudaria a tirar aquela gente que atrapalhava a sua vida. Acertar uma pedra num tanque e depois contar aos amigos, fazia dele uma espécie de herói.

Foi então que tudo aconteceu muito rápido. Samir jogava uma pedra quando um soldado revidou. A bala passou a poucos centímetros sobre sua cabeça, e ele viu pela primeira vez a face da morte de perto.

Em Jerusalém Hanan contrariando sua mãe correu para a parada de ônibus. Não alcançou a tempo, e o ônibus partiu sem ele. Lembra que se sentou resignado na parada quando escutou a explosão. Um homem bomba tinha se detonado, e seu celular tocava sem parar. Pela primeira vez ele viu a face da morte de perto.

Eles tiveram a sorte que outros não tiveram. Milhares de vidas já foram perdidas. Esta na hora de agirmos em favor da paz. Uma paz que impeça que esta barbárie continue. Logo vai haver eleições em Israel e nos territórios. Caso tenha amigos ou parentes lá residindo, peça a eles que votem nos partidos comprometidos com a reconciliação. Faça isso em nome de Hanan, Samir…

Basta de guerra, agora é PAZ.

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