14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Desculpem, mas eles sabiam o que estavam fazendo.

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Por Mauro J. Nadvorny Desde a malfadada ação de Israel contra os barcos de ajuda humanitária que tenho ficado calado. Mesmo diante de sentimentos de perplexidade, tristeza, raiva e compaixão, permaneci quieto.Esperei até o dia de hoje aguardando que todos falassem e expusessem suas opiniões. Mais, esperei que a poeira baixasse aguardando por algum novo desdobramento, uma nova revelação. Esperei para ver estampado nos noticiários o material bélico que Israel mostraria haver encontrado em meio a ajuda humanitária. Uma prova qualquer irrefutável que pudesse minimamente justificar tamanha estupidez. Nada apareceu.Atacar um comboio humanitário da forma como foi planejado permite se falar em premeditação de mortes. Exércitos são treinados para matar, mesmo que sob o eufemismo de “exército de defesa”, todo soldado aprende que é melhor atirar antes e perguntar depois. Portanto enviar uma tropa treinada na arte de matar para atacar navios de civis sabidamente compostos de pacifistas rancorosos com Israel, foi premeditar o desastre da operação com a consequente morte de inocentes. Para completar o que já era terrível, foi realizá-la em águas internacionais.Dizer que os soldados foram atacados e atiraram para defender suas vidas é menosprezar nossa inteligência. Todas as cenas filmadas de dentro e de fora dos navios mostram tropas armadas atacando um barco com ajuda humanitária. Mostram soldados totalmente desorientados em confronto com civis. Homens sem nenhuma orientação tática de como enfrentar aquela situação. Manifestações de civis são contidas por tropas policiais treinadas neste tipo de trabalho. Muitas vezes os manifestantes fazem uso de paus, pedras e até coquetéis Molotov, nem por isso policiais fazem uso de armas de fogo. Qualquer investigação independente vai chegar a uma única conclusão: a tomada de navios com ajuda humanitária em águas internacionais agravada com a morte de inocentes, é um ato de pirataria.Sou obrigado a voltar no tempo para dizer que nada disso teria acontecido se não fosse mantido o bloqueio de Gaza. Uma ação sem sentido algum, ineficaz e totalmente imprópria sob a lei internacional que proíbe o castigo coletivo. Mas Israel é reincidente em matéria de desprezo as leis internacionais. O ataque recente a Gaza com o massacre de centenas de civis mostra que o atual governo do país acha que se encontra acima dos direitos e obrigações que todos os países democráticos impõe a si próprios.O governo de Israel conseguiu mais uma vez unir nossos inimigos e somar a eles nosso últimos amigos. O mundo não é povoado somente de anti-semitas. O mundo é cada vez mais formado por pessoas que se importam. Pessoas que desejam um mundo melhor para todos. Pessoas que não aceitam que um milhão e meio de pessoas permaneçam confinadas numa imensa prisão territorial sem ajuda alguma e impedidas de reconstruírem seus lares, seus hospitais, suas fábricas etc. São homens e mulheres que participam hora de uma luta para salvar um animal em extinção, hora para enviar ajuda para quem sente fome.Os jornais israelenses são unânimes em afirmar que o bloqueio não serviu para nada. Quer Israel goste, ou não o Hamas está lá para ficar. Por mais odiosos que possam ser para alguns, o regime do Hamas foi legitimamente eleito pelo povo palestino. Ganhou, mas não levou e deu no que deu.Em meio a toda esta situação ninguém lembrou de Gilad Shalit. O soldado esquecido. Uma vergonha nacional. Todos os esforços são feitos para impedir que ele seja libertado. Até mesmo os melhores negociadores de países amigos estão desistindo. Toda vez que se chega a um entendimento o governo de Israel impõe novas condições que impedem um desfecho feliz. Uma lição para os futuros soldados, não se deixe capturar vivo quando estiver servindo ao seu país, ou passe os melhores anos de sua vida numa prisão em terra estranha.Dias tristes para Israel e para todos nós, judeus humanistas que se importam com o caminho paranóico de enfrentamento que o atual governo impôs ao país. O primeiro-ministro foi a TV para anunciar o triunfo da operação que impediu que o Irã conseguisse abrir um porto de terrorismo em Gaza. Israel mais uma vez salvou o mundo! Quem não acreditar não acredita em Papei Noel, Coelhinho da Páscoa, e principalmente não credita em Nethanyau porque é um verdadeiro anti-semita.Ao menos em meio a tanta insensatez muitas vozes contra mais este ato de barbárie se fizeram escutar em Israel. Mais e mais israelenses estão colocando o dedo em suas consciências e percebendo que existem limites para quem deseja viver em paz no seio dos povos do mundo. Que nas próximas eleições, sejam a maioria.


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