18/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Algumas notícias para começar o ano:

  • A Argentina (aquele país odioso e primitivo que tem Oscar, tem Papa, tem Nobel, tem imposto sobre grandes fortunas, e teve Maradona) agora tem aborto legal. O monstro desqualificado que outros 57 milhões de desqualificados colocaram no poder, neste paraíso chamado Brasil, criticou a medida, sob o surrado argumento de ser a favor da vida. Diz apiedar-se dos embriões. Trata-se da mesma pessoa que, no ano recém findo, não apenas causou a morte, por ação e omissão, de dezenas de milhares de brasileiros, como debochou acintosamente delas (as mortes e as pessoas) e das famílias enlutadas.
  • O jornal O Estado de São Paulo, cúmplice proativo, explícito e protagonista, dos desmandos, ilegalidades e arbitrariedades que atiraram o país ao abismo em que está metido, começa seu editorial de hoje, 01/01/2021, dizendo que os brasileiros contam as horas para o final do governo Bolsonaro, tido pelo centenário periódico conservador como, de longe, o pior da história do Brasil.
  • O nosso Ministério da Saúde, liderado pelo maior especialista em logística do mundo, atravessou o ano da maior tragédia sanitária global, em um século, mais perdido do que cego em tiroteio. É o mais atrasado do planeta. Não sabe qual vacina utilizará, não se sabe quando vai possuir alguma, e, muito embora disponha da mais completa, sofisticada e experiente infraestrutura de vacinação do mundo, não tem a menor ideia de como imunizará nossa população contra o vírus. Deixou vencerem, sem utilizar, vários milhões de testes diagnósticos de COVID-19, arma sabidamente eficaz no manejo da pandemia. Fármaco e dinheiro foram pro lixo. Para não deixar cair a peteca, e fechar o ano com chave de outro, fracassou miseravelmente na tentativa de simples compra de seringas. O pregão, destinado a adquirir 330 milhões delas, não comprou sequer 10 milhões. Não dá nem pra vacinar a população da cidade de São Paulo.

Estou tentando heroica e estoicamente encontrar palavras com as quais possa construir uma reflexão minimamente coerente em relação ao contexto capaz de gerar semelhantes fatos. Deixo ao(à) eventual leitor(a) a tarefa de, se quiser, também pensar sobre o respectivo significado e os desdobramentos, tanto independentes, de cada um deles, como do conjunto interconectado.

Confesso que pra mim está muito difícil. Chegamos a um ponto em que a barbárie foi  naturalizada de tal forma que desconfio que se um brasileiro comum se deparar com um cão de duas cabeças e seis patas, na rua, não vai achar nada de mais.

Afinal, pouco se lhe importa a hipocrisia demagógica de um presidente que, ao tempo em que mata diariamente milhares de pessoas, vem a público, movido pela conveniência política mais abjeta, afirmar-se a favor da vida.

Tampouco se apercebe, nosso prezado concidadão, da manipulação canalha a que é submetido pela mídia oligárquica todo santo dia. Culpado direto, doloso e premeditado da própria existência de Bolsonaro, o Estadão agora, ao condená-lo, adota o tom de um terceiro desinteressado. No que, aliás, não é nenhuma exceção.

Igualmente, não faz cócegas intelectuais ao brasileiro comum a inépcia colossal justamente das autoridades mais importantes no dia de hoje, para o destino da sua vida e da dos seus. Lé é lé, cré é cré, e tudo bem.

Lembro-me com impressionante nitidez do terror que me tomou de assalto no momento exato em que soube da eleição de Donald Trump.

Aquilo era simplesmente inconcebível. Como podia ser? Uma caricatura de ser humano, cuja simples figura era um atentado civilizatório, iria liderar o mundo? Como poderíamos ser tão imbecis, tão irresponsáveis, tão inconsequentes? Qual destino nos aguardava?

A mesma sensação, agora multiplicada ao infinito (seja porque dizia respeito direto ao meu dia-a-dia como brasileiro, seja porque a repetição poderia indicar uma tendência), sobreveio na proclamação da vitória de Bolsonaro, este uma caricatura daquela caricatura. Uma perplexidade sem limite, sem medida, sem explicação.

Felizmente estamos prestes a nos livrar do primeiro, muito embora não tenha decepcionado no que tange aos estragos que causou, cujos efeitos custarão gerações para serem amenizados.

O segundo, porém, ainda está aí. E tampouco decepciona. Ao contrário. Não apenas concretiza todo o horror que previmos (nós, os milhões que não o elegemos), como se esmera todos os minutos de todas as horas de todos os dias em piorá-lo ao limite do intolerável.

Nós, os milhões que não elegemos esse monstro, sabíamos que ele o era. O que, diga-se, não constitui nenhum mérito, porque ele jamais teve a menor preocupação em esconder ou mesmo disfarçar a sua monstruosidade. Ao contrário, ostentou-a sempre com o orgulho de um sociopata ordinário.

É preciso admitir, porém, que nem o mais realista, ou o mais pessimista, poderia imaginar que chegaríamos tão fundo, sob o nariz apalermado de um povo incapaz de qualquer reação.

E assim aporto à única reflexão que me é possível.

O Brasil carece de pessoas de caráter em posições decisórias.

A serpente que hoje o devora não é fruto de geração espontânea ou de maldição divina. Ela nasceu de um ovo que foi posto, gestado e chocado à vista de todos.

E que poderia ter sido aniquilado em todas as suas etapas evolutivas, antes de dar o mal puro à luz.

À História caberá, com o necessário distanciamento temporal, compreender e explicar as razões pelas quais não o foi.

Arrisco, entretanto, algumas hipóteses.

O povo brasileiro, manipulado, enganado, cegado e manietado pelas elites e seus fantoches midiáticos, foi reduzido a uma patética impotência, ou tangido à destruição de moinhos de vento.

Os políticos de todo o espectro ideológico jamais foram capazes de dar uma resposta minimamente digna porque jamais tiveram a decência de olhar um centímetro além de seus próprios umbigos.

Restavam os juízes. Alguns analistas, escorados nos precedentes históricos, nunca apostaram neles um níquel furado; outros eram menos céticos.

A meu ver, a História, essa dama implacável, dará razão aos primeiros.

Todos os olhos conscientes deste país viram quando a elite, pela enésima vez, colocou as mangas de fora para abortar um incipiente e insignificante processo de equalização da cidadania brasileira.

Impune, sentiu-se encorajada para levá-lo adiante, nas barbas passivas dos que podiam evitar.

Nem nós nem a História esqueceremos que os Ministros do STF ficaram desgostosos quando Dilma lhes negou indecente aumento salarial.

Tampouco esqueceremos que, mesmo instados a agir, pelos meios próprios, eles ficaram inertes diante do boicote liderado por Eduardo Cunha nas pautas-bomba do Congresso.

O Brasil jamais deixará de sentir o impacto que sofreu quando os representantes da mais putrefata dessa elite escancararam a cumplicidade dos ministros da Suprema Corte no acordo espúrio “com Supremo com tudo” para atirar as instituições – e com elas, a democracia – no esgoto.

Nós cobraremos, em algum momento, a comprovação desse processo escabroso pela omissão criminosa do STF em decidir que não havia crime de responsabilidade a embasar o  impeachment. O processo é político, mas a base que o sustenta é jurídica.

O judiciário é – ou deveria ser – o último refúgio da cidadania. Ela a ele acorre quando tudo o mais não a socorreu.

Os juízes do STF tinham nas mãos, naquele momento, o destino do Brasil. Mas lavaram-nas.

Tinham o poder, e mais, o dever, de impedir o conluio, a trama, o golpe. O crime de responsabilidade, único evento capaz de gerar o impedimento de um presidente da república, está definido na Constituição. É, portanto, uma figura jurídica, cuja existência no caso concreto depende de exame e interpretação. Ambos cabem, privativamente, ao Supremo Tribunal Federal.

Entretanto, provocado inúmeras vezes, ele nunca o fez. Jamais se pronunciou se crime houve, tal como previsto, ou não. Omitiu-se. Tinha poder de mudar a História, e não o fez. Abriu mão desse poder, em nome de interesses menores e mesquinhos.

Tiraram o corpo fora. E ali selaram nossos destinos. O ovo da serpente, ainda frágil, estava exposto a céu aberto. Quem poderia destruí-lo esquivou-se. Permitiu que fosse chocado. Como a boa e velha História não se cansa de ensinar, sempre se sabe quando e como um golpe contra o Estado de Direito começa, mas nunca quando ou como termina. Hoje, diante do caos que provocaram, tratam do assunto como se não tivessem nada com isso.

Já nem falo das lavajatos da vida, conduzidas num nível primário por notórios fraudadores, obscurantistas, fundamentalistas e retrógrados adoradores da barbárie.

Porém não poderemos, nós e a História, esquecer-nos de que também tais aberrações só puderam florescer e adquirir peso capaz de influir nos destinos da Nação, à sombra das mesmas omissões de quem deveria coibi-las.

Afinal, se a presidência da república é tão frágil que pode ser mortalmente ferida por quase nada, ao sabor de conveniências de ocasião, qual o problema de fraudar uma eleição através de lawfare, para ali colocar um “amigo” e impedir o acesso a um inimigo?

Tanto problema não há, que foi feito despreocupadamente. E com absoluto sucesso.

Mas nem mesmo a consumação do dano formidável foi capaz de sacudir a letargia. Na semana que vem completar-se-ão nada menos do que 19 meses da vinda à luz, através do site The Intercept Brasil, daquela que é possivelmente a maior e mais grave fraude judiciária da história mundial, e até agora não houve absolutamente nenhuma consequência.

Alguns Ministros do STF até se escandalizaram e deram declarações contundentes reconhecendo a falcatrua jurídica. O mais notável foi Gilmar Mendes, que, entre muitas outras coisas,  cunhou a expressão irônica “Direito Penal de Curitiba”, e invocou o Espírito Santo para que, se não pudesse fornecer aos Ministros um pouco de senso de justiça, que ao menos lhes preservasse o senso de ridículo.

Mas mesmo assim…nada. A escancarada e escandalosa parcialidade do julgador em inúmeros casos ainda não foi sequer apreciada. Nem um único dos processos viciados pelo conúbio criminoso entre juiz e procuradores foi anulado. Periga de tudo simplesmente cair no esquecimento.

Moro continua sem sofrer uma punição sequer. Ao contrário, leve e fagueiro, acaba de subir na vida. Dallagnol, idem.

E lá se vão dezenove meses. Dezenove!

Não nos enganemos, portanto. Enquanto povo, temos culpa, sim. A pequenez e o mau caráter de nossa classe política, também.

Mas não olvidemos os Ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, como ninguém, tiveram o destino do Brasil na mão, e o jogaram aos lobos.

A História, Excelências, esconde-se logo ali, dobrando a esquina, e está de olho em vocês. Ela sabe o que vocês fizeram no verão passado.

 

 

 

 

 

 

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