25/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Coração partido

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Na história das religiões e civilizações o coração tem sido a principal metáfora do amor. No “Cântico dos Cânticos” da Bíblia, já se usava a expressão “conquistar o coração” nas relações afetivas. E amor se associa tanto ao curativo do vazio como às feridas narcisistas das separações, é quando o coração é partido. Portanto, como as perdas ocorrem desde o nascimento até a morte, a história de cada um também pode ser escrita a partir dos sofrimentos. Um diferencial entre as pessoas são as reações diante das situações traumáticas, quando ocorrem desequilíbrios e crescem as vivências de desamparo. Por outro lado, são emocionantes as reações diante de histórias assustadoras, quando alguém consegue, recuperar a potência criativa. São muitas as explicações para os que caem e se levantam, como a maior possibilidade de suportar as frustrações, a capacidade negativa, a resiliência, entre outras. Entretanto, nada é melhor do que as histórias, pois são elas que revelam como o impossível acontece. São narrativas que ajudam a diminuir o peso das dores e fortalecem a coragem no amanhã.

Nos momentos de coração partido, é bom conhecer como outros viveram e lembrar a frase: “Nada mais inteiro que um coração partido”, que consta do Zohar, o trabalho essencial da literatura cabalística. Quanta verdade encerra essa frase poética, pois a tristeza das perdas envolve sentimentos intensos que podem ser cicatrizados no tempo. O coração partido como expressão de humanidade revela a vitalidade de sonhar. O coração quebra a cada perda, diante das ilusões perdidas, do desânimo político, da decepção com a condição humana. Anima conhecer como os demais suportam tragédias e encontram caminhos para se reerguer.

Nesse sentido impressiona a vida do diretor de cinema Roman Polanski, que se pode ver no excelente documentário “A vida em filmes”. Roman recorda sua vida no Gheto de Cracóvia dos seis aos doze anos, durante a Segunda Guerra Mundial. Perdeu cedo a mãe, morta pelos nazistas, mas a maior quebra de seu coração, ele diz, foi o assassinato de Sharon Tate, sua bela esposa grávida. Na entrevista aborda sua relação sexual com uma adolescente, fala como um erro grave e pagou por ele com uma prisão nos Estados Unidos e outra na Suíça e um pedido de desculpas à moça e sua família. Sua existência transcorreu entre altos e baixos, mas se diz um otimista, diz que vê sempre o copo meio cheio. O documentário mostra como Polanski suportou as quedas e festejou as conquistas sem queixar-se da vida.

Queixas e corações quebrados não faltam hoje no Brasil, que já foi definido como o país do carnaval, como se aqui só desfilassem alegrias. O choque vivido está no desconhecimento da História e na idealização de um país bom e pacífico. Nunca faltou desprezo e violência aos negros, índios e pobres neste país, situação que se mantém ainda hoje.

Diante das piores ditaduras, há ocorrências que desafiam a crueldade, tanto aqui como na História Mundial. Pensando na frieza que se vive aqui, na falta de empatia e humanidade, escolhi relatar sobre o menino e o olho de vidro. Os nazistas atacaram uma aldeia da Europa Oriental cercando o último reduto de resistência concentrado numa casa. Após horas de tiroteio, os soldados alemães conseguem entrar na habitação, onde estão todos mortos, menos um menino de dez anos. Forma-se um pelotão de fuzilamento, mas o comandante se aproxima do condenado e diz:“Não sou assassino de crianças e lhe dou uma chance para não morrer. Tenho um olho perfeito de vidro, e se você acertar qual é ficará livre”. O menino olhou bem e apontou um dos olhos e o comandante disse “Como você acertou qual era meu olho de vidro?”. O menino disse: “Ele tem algo de humano”.

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