06/05/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Construção

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Betty Korich é advogada e dramaturga. Betty Korich se arrependeu de um ato que considera insano e estúpido. Em 2018, na cabine eleitoral, digitou 17 e passou a fazer parte do contingente de quase 58 milhões de pessoas que levaram um boçal à presidência. Betty Korich não gostava dos rumos do país e queria “mudanças”. Sabia do currículo autoritário do monstro, mas racionalizou, pensando que “aparentemente ele tem uma boa equipe de ministros”. No dia 1 de abril passado, Betty Korich publicou um doloroso mea culpa na Folha de S. Paulo. Como muitos que se arrependeram do voto no protofascista, ela não foge da raia e assume sua parcela de culpa no desastre vergonhoso que o Brasil enfrenta. “É vergonha com raiva, com arrependimento, com sentimento de culpa”, confessou.

Considero corajoso este tipo de gesto, feito pública e espontaneamente, sem meias palavras. Muita gente, sem aceitar nuances na decisão do voto, discordará. Combinar justa indignação e ressentimentos vários não leva a lugar algum. Começa com uma dificuldade metodológica: quem é bolsonarista? Todos os que votaram nele? Nada disso. Assim fosse, o chavelhudo estaria reeleito. Há espaço, e Becky é apenas um exemplo, para trabalho político, que exigirá abrir mão de palavrões, ofensas, vitupérios, em nome de combater o inimigo comum. Gritar ao vento, especialmente detrás de um monitor, é bom para descomprimir o peito, mas não vai além disso.

Antes de continuar, lembrei-me do Poema em linha reta, do Fernando Pessoa. Ótimo para os que acham que nunca fizeram mer…, digo, besteira na vida. Diz lá pelas tantas: Toda a gente que eu conheço e que fala comigo/Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,/Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida …/Quem me dera ouvir de alguém/Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;/Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!/Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam./Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?/Ó príncipes meus irmãos./Arre, estou farto de semideuses!/Onde é que há gente no mundo?/Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Prossigamos. Quando a esquerda perde a embocadura e adere à hepatopolítica, meio caminho se andou para o desastre. Não estamos à beira de uma revolução socialista, muito ao contrário. Trata-se, com muita clareza, de identificar o inimigo comum imediato e criar os fundamentos para derrotá-lo. A situação é tão angustiante que, bem resumiu Hélio Schwartsman, “perto de Bolsonaro, Doria é um farol de Iluminismo”. A pior saída será o gueto.

Vejo, por exemplo, o manifesto recém-lançado por alguns “presidenciáveis”. Ressalte-se que “presidenciáveis” para setores muito estreitos da sociedade. A maioria estava abraçada ao coisa ruim até anteontem. Um deles foi seu ministro. Todos defendem a democracia e alertam para os perigos que ela corre. Minha memória faz cócegas. Será que só agora identificaram estes perigos? Bem, felizmente tenho outro lado. Sem perder o lastro de prudente desconfiança, considero indispensável conversar com essa gente, se estivermos de acordo em mandar o descontrolado colérico pregar em outra freguesia.

A esquerda não deve abrir mão de suas reivindicações históricas. Precisa, no entanto, ter a sabedoria de negociar os termos de um programa mínimo, que faça avançar as propostas que virão do centro. O que me aflige são os sinais de uma perda de bússola, insinuados, por exemplo, pela insistência em dar primazia a nomes e egos.

Hora de parar com o tiroteio verborrágico – quantas vezes tive que limpar os detritos do meu monitor? – e partir para uma estratégia negociada que nos liberte da destruição nacional em curso.

Abraço. E coragem.

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