14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Chic é ser desonesto

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O PADRÃO MUDOU. CHIC É SER DESONESTO.
 
O assim chamado filósofo Luiz Felipe Pondé brinda-nos hoje, com seu artigo na Folha/UOL, com uma verdadeira ode ao pseudoevangelismo que assola o Brasil, defendendo a política pública proposta pela Ministra Damares, que é a da abstinência sexual como forma de prevenção de gravidez precoce e outras questões de impacto social.
 
Pondé defende que as igrejas evangélicas formam um poderoso vetor de organização social, que na sua descrição, “adiar a vida sexual, principalmente das meninas de classes sociais vulneráveis, é uma ferramenta comportamental de grande uso para evitar a gravidez indesejada, a violência contra a mulher, filhos abandonados que migram para o crime”.
 
Alega ainda que diante da “falência total do estado” as igrejas vem sendo ferramentas de organização de vidas”, e que “tem alunas que contam que seus pais, evangélicos, mantiveram-nas afastadas do destino mais comum de suas amigas, o de envolverem-se com traficantes que logo são assassinados e deixam filhos órfãos”.
 
Ele apoia a política de Damares, em síntese.
 
Como assim? Pode um professor de filosofia de nível universitário, pós-graduado e titulado, defender uma política pública sobre a qual, confessadamente (pela equipe da Ministra Damares) não há evidência científica alguma sobre sua eficácia?
 
Pode um professor de filosofia aceitar que o tipo de neopentecostalismo praticado no Brasil seja uma boa (e única, a julgar pelo seu texto) forma de se preencher os vazios do estado?
 
Pode um professor de filosofia induzir seus leitores a acreditar que a simples repressão moralista e vazia de valores sociais estruturantes é capaz de diminuir a violência contra a mulher, logo em um momento em que, associado ao crescimento do neopentecostalismo brasileiro, a violência contra a mulher e os feminicídios crescem epidemicamente?
 
Pode um professor de filosofia tentar convencer seus leitores com uma absurda visão racista que o crime nasce nas classes mais vulneráveis, quando vemos a violência miliciana crescente e oriunda de ex-oficiais e graduados das polícias?
 
Amigas e amigos, estamos diante de uma das maiores fraudes intelectuais já vista por estas paragens. Sabemos muito bem que a violência contra a mulher (e também contra os LGBTI) é na maior parte originária do moralismo de fundamento neopentecostal (não exclusivemente) que por sua vez fomenta a sociedade patriarcal machista e intolerante. A visão de mundo provida por boa parte destas igrejas forma pessoas limitadas a um tipo de visão de mundo em detrimento de outras, restringindo assim, especialmente so jovens, o acesso a experiências e diálogos com outros setores do conhecimento e com formas de amadurecimento psicológico, social e político.
 
Não se trata aqui de promover ódio contra a religião ou de negar seu valor como forma de organização social e cultural. Trata-se de combater a visão de que a religião e seus valores, em um dado momento de uma nação é a única forma (e como já disse, sem demonstração científica) de combater certas mazelas da sociedade, bem como combater a visão racista e restrita sobre a origem de nossos males.
 
O pior de tudo, a sociedade está engolindo este tipo de fraude e ainda paga por ela. Parece que a desonestidade intelectual passou a ser um valor capitalista, definitivamente.

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