16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Chamem Janete Clair!

7 min read

“Existem no Brasil apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o Carnaval”

                  (Barão do Rio Branco)

 

Em maio de 2020, quando contávamos com aproximadamente 23000 mortos pela Covid, o Ministro Celso de Mello liberou o acesso ao vídeo  da reunião ministerial ocorrida no do dia 24 de abril desse mesmo ano, no Palácio do Planalto. Tal resolução se deu por conta do quiproquó do então Ministro da Justiça Sérgio Moro com Jair Bolsonaro. Moro acusou o presidente de tentar interferir na Polícia Federal e o vídeo seria uma prova disso, portanto o que aconteceu nessa caterva foi liberado para todo o cidadão brasileiro.

Movida por meu estoicismo patológico, não apenas assisti a reunião inteira, como escrevi, na época, sobre as minhas impressões. Um Ricardo Salles achando que a covid era uma ótimo negócio para, segundo ele, passar a boiada. Naquele momento  apenas um projeto, mas parabéns, seu plano de destruição em todos os sentidos tem dado super-certo. Vi uma Damares histérica falando sobre seringais (o que me despertou o tiozão adormecido no centro do meu ser, o que o seringueiro fica fazendo na mata?…o resto vocês completam), os planos do então Ministro do Turismo  Marcelo Alvaro Antonio (nome fantasia, o verdadeiro é Marcelo Henrique Teixeira Dias),de transformar o Brasil  numa terra de jogatina,  ministro este que acabou rodando por corrupção das brabas, daquelas que não dá pra botar glacê em cima  e por mandar bilhetinho malcriado para o General Ramos. Na época eu,  inocente,  me queixei dele arrebentar meus tímpanos de tanto falar SEJE.  Não imaginava que algo pior pudesse atingir meus sensíveis ouvidos. Mas Bozo nunca decepciona né?  Entrou em seu lugar  Gilson Machado, o ministro sanfoneiro, aquele mesmo que a cada tecla que aperta do acordeom Gonzagão e Dominguinhos se reviram no túmulo e que ao tocar Asa Branca  numa live do presidente para homenagear os mortos, acabou por torturar os vivos.

Teve de um tudo naquela reunião. Tarcísio comparando Bozo a Churchil e Roosevelt, Bozo explicando para o médico e morto-vivo Teich sobre a cloroquina e como usa-la,  Weintraub antes da fuga falando em prender os Ministros do STF, Paulo Guedes revelando que tem o dom da profecia ao falar “o Brasil vai surpreender o mundo”,  entre outras coisas observadas que agora já não fazem muito sentido repeti-las.  De todos ali, porém,  só livrei a cara de certa maneira do ex na época Chanceler, Ernesto Araújo, aqui repito minhas palavras:  Tivemos a prova que o Chanceler merece verdadeiramente o título de Ministro das Alucinações Exteriores, o caso ali é grave e sem querer ofender os loucos, passível de internação. O papo do Brasil sentar a mesa com as nações mais importantes para definir os rumos da nova ordem mundial foi a coisa mais delirante que ouvi nessas minhas quase duas horas de sofrimento. E olha que o páreo ali estava duro.”

Passado um ano , destituído do cargo, quatrocentos mil mortos depois, o ex-chanceler foi chamado a depor na CPI da covid. Até então eu não havia tido a oportunidade de vê-lo falando ao vivo. Ernesto muito tinha a responder, principalmente no que se refere a intrigas com o embaixador chinês , o que acabou por prejudicar a nós brasileiros pelos atrasos dos insumos para a produção da vacina. Com o carisma de uma cama enferrujada abandonada em um quintal, suas respostas eram evasivas, levava o nada a lugar nenhum, gaguejava, tropeçava, não completava o raciocínio. Levou uma bela carcada da Senadora Katia Abreu, sendo chamado por ela de bússola para o caos. Teve um momento que ele (acredito que num delírio) disse  “Minha gestão atendeu perfeitamente os interesses brasileiros no que se referiu a pandemia”. Ali minha certeza se confirmou, ele  não deveria estar sendo inquirido por uma CPI e sim por uma Junta Psiquiátrica.

Resolvi então saber um pouco mais sobre esse senhor e o que o levou a ocupar o posto de chanceler de nosso país. Em abril de 2019 a Revista Piauí fez uma longa reportagem sobre ele. A gagueira e as falas irresolutas não foram provocadas pelo nervosismo de estar numa CPI. O autor da matéria, ao traçar ser perfil, diz  ”Tem modos inseguros, voz discretamente desafinada, forma hesitante de se expressar, com emprego sistemático de eeee, perfeito, exato, ótimo, ou exato, após ser questionado por qualquer pergunta. “

Seu pai foi procurador da República do RS, mas mesmo com sua carreira no MP, foi eleito quatro vezes como deputado estadual .Apoiador do golpe de 64 foi nomeado Procurador Geral da Republica de Ernesto Geisel em 1975. Ernesto estudou em colégios católicos tradicionais de Brasília, na matéria diz que seu refúgio era a literatura e tinha facilidades com línguas. Aos dezessete anos lançou um livro de poemas: Ocidente. Pensava em ser professor de grego, para nosso azar optou pela carreira diplomática e para a sorte da poesia brasileira parou de cometer versos.

Seus antigos chefes,, embaixadores de renome, elogiam seu trabalho enquanto a função que escolheu exercer. Escrevia relatórios, se aplicava com afinco  a questões comerciais internacionais, ainda que as achasse tediosas. Cumpridor de horários, de serviço, um homem culto e que nunca havia misturado sua vida pessoal a sua vida profissional. Casado com uma secretária filha de embaixador respeitado, que veio a conhecer em Berlim, nada a se falar sobre ele.

Contudo em 2018 publicou um artigo: ”Trump e o Ocidente”, na revista semestral do IPRI, de mais de trinta páginas.  .Uma exaltação ao trumpismo, onde questões como imigração (ser um absurdo), investidas contra a Revolução Francesa, a defesa fervorosa a nacionalidade e se colocar contra o que ele chama de globalismo, foram o cerne dessa ode ao Cabelo de Cenoura . Aí fica fácil. Pelas mãos de Felipe Martins, o falso judeu cujo tio trambiqueiro vendeu uma rocha dizendo ser um pedaço de terra na Escócia para Uri Geller, o suposto paranormal da década de setenta que costumava entortar garfos e colheres usando a força do pensamento e Dudu Bolsonaro, Ernesto chegou ao astrólogo de churrascaria na Virginia.  E POR ELE foi indicado ao presidente da República para ser nosso chanceler.

Não sei se já comentei em alguma crônica anterior, mas em 1967 a Globo fez uma novela chamada Anastácia, a Mulher Sem Destino. Escrita inicialmente por Emiliano Queiroz, por conta da profusão de tramas paralelas e pela quantidade de personagens, nem a audiência, nem os atores entendiam mais nada.  Alguém da direção  gritou: ”Chama a Janete Clair, que ela resolve qualquer coisa!”  Como a história se passava numa ilha vulcânica, a idéia foi fazer uma erupção monumental, assim todos os personagens morreram, sobrando só uns três para Janete recomeçar a novela do nada. Quando me vejo falando de falso judeu assessor internacional da presidência, tio barão estelionatário, Olavo de Carvalho comandando os destinos de uma nação, tenho ímpetos de gritar: Chama a Janete!

Ernesto quis mexer com uma instituição, que mesmo nos piores momentos brasileiros, sempre teve como conduta a ponderação e o diálogo. Ele, no seu texto trumpista, diz que o globalismo quer destruir os valores cristãos, da família, da Sociedade Brasileira”.  O que acharia disso o Barão do Rio Branco…. Aquele que contrariando os desejos da família, de fazer um bom casamento e ascender socialmente, lutando contra  um destino traçado, afinal era nada mais que filho do Presidente de Conselhos de Ministros, apaixonou-se por Marie Philomene Stevens, moça belga chegada sozinha no Brasil, solteira e sem família , e que se virava sendo corista secundária num espetáculo de  can can can num Cabaré do Rio de Janeiro??? ..Com ela teve vários filhos e casou-se.. Gostaria de saber a opinião do diplomata sobre isso.

Não sei o que será resolvido no caso do ex-Chanceler. Por mais que acreditasse nas suas ideias paranoicas, o estrago que causou ao país, ao próprio Itamaraty, foi irreparável. Que foi cúmplice dessa infâmia, não tenho a menor dúvida e carregar quatrocentos mil mortos nas costas por loucura ou não, não livra a cara de ninguém. So espero, sinceramente, que ele não dê continuidade a sua carreira de escritor ficcional. Para quem não sabe, depois de cometer poesias, esse senhor lançou três obras ficcionais:” A Porta de Mogar” (1998), Xarab fica ( 1999) e Quatro 3 (2001).Lançados pela editora Alfa Ômega. São livros de poucas páginas, porém os enredos são ininteligíveis. Amigos, na maior boa vontade, me mandaram resenhas sobre eles, para enriquecer meus conhecimentos. Tentei. Até li trechos. Mas, como falei em uma postagem, não são obra para uma simples professora. Eles devem ser encaminhados a quem tem formação psiquiátrica. Pura psicose. E esqueçam Artaud, ao contrário do francês, ele não tem o menor talento. Fica aqui, para finalizar, uma frase do brioso diplomata na CPI: “Quem não sabe para onde está indo, não pode escolher o melhor caminho”. E a minha resposta para ela: Foi assim que você  nos meteu nesse poço fundo. Sem mais.

 

Deixe uma resposta