16/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 22

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 Capítulo 22

” … dizer que o pior aconteceu,

Pode guardar as panelas

Que hoje o dinheiro não deu.”

Paulinho da Viola – Pode Guardar as Panelas

 

Os ônibus que partiam de Ipanema rumo ao centro cruzavam primeiro por Copacabana para depois sair da Zona Sul pelo Túnel Novo. Do outro lado, passavam pelo Shopping Rio Sul, pelo teatro do Canecão e pelo campo do Botafogo antes de virarem à esquerda em direção à praia de mesmo nome. De lá, beiravam a Baía de Guanabara seguindo em direção a um mundo de escritórios e de repartições públicas. No meu primeiro dia como estudante universitário me senti bem pegando o ônibus 511 que seguia a mesma rota, mas que depois do Túnel Novo pegava a direita para entrar na pacífica Praia Vermelha, terra do Iate Clube e dos quartéis mais ilustres do exército.

Enquanto o ônibus enfrentava o eterno congestionamento da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, comecei a pensar sobre o ciclo que estava prestes a começar. Nas minhas divagacões, me dei conta de que não sabia o que esperar de um curso de Economia nem dos meus colegas. Fiquei curioso. Foi estranho saltar do ônibus em frente à Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, e entrar no campus. Já tinha passado por ali milhares de vezes mas nunca imaginei que um dia fosse estudar naquele lugar bonito. 

Ao cruzar o portão descobri um lugar tranquilo, com árvores bem cuidadas margeando ruazinhas sem trânsito separando construções bem preservadas do século passado. Originalmente, o prédio da faculdade tinha servido como um hospício, agora transferido para um prédio mais moderno dentro do campus, o famoso Pinel. Em pouco tempo estaria me deparando com enfermeiros correndo atrás de pacientes em fuga entre os carros estacionados e nos corredores da faculdade.

As salas eram maravilhosas, amplas e bem preservadas. Elas tinham sido o ninho da resistência estudantil à ditadura militar nos anos 60. A União Nacional do Estudantes (UNE) havia organizado muitos dos seus encontros cruciais em um dos patios internos daquela faculdade, num anfiteatro semiaberto, o Teatro de Arena. A maioria dos estudantes que haviam optado pela resistência armada tinham tomado suas decisões ali nos mesmos corredores e salas que estavam prestes a nos receber.

O legado político do prédio ainda estava vivo. Mesmo em 1981, ainda circulavam rumores de que alguns colegas eram policiais disfarçados – a carapuça servia, mas não dava para saber. O diretório central dos estudantes, o DCE, era agitado. Suas assembleias eram frequentadas por trotskistas, leninistas, maoístas e anarquistas, bem como membros dos partidos recém-formados, como o PT e o PDT, herdeiro do histórico PTB de Getúlio Vargas. Havia também gente ligada a movimentos mais antigos e barra pesada como o MR-8 e o Partido Comunista bem como aqueles militando pela ecologia, pelas nações indígenas e pela diversidade sexual.

O pau quebrava no centro acadêmico. Havia arranca-rabos sérios por quase tudo; como, por exemplo, qual deveria ser a postura do diretório dos estudantes perante a invasão soviética no Afeganistão? qual partido comunista representava de verdade as massas, o PCB ou o PCdoB? quem melhor expressava as aspirações do povo, Lenin, Trotsky, Mao, Bakunin ou Marx? Essas divergências teóricas insuportáveis faziam com que a experiência de se envolver em política estudantil parecesse com a de se pertencer ao clero. 

*

Longe das questões teóricas da faculdade, a situação política do país era assim: A utopia revolucionária dos Cubanos estava morta. Ninguém mais acreditava nela, nem a queria e seu pai rico, a União Soviética, estava falido e há muito tinha parado de investir em levantes populares. Seu envelhecido arqui-inimigo, o regime militar, estava em seu leito de morte. Apesar de tudo isso, depois de quase duas décadas de regime militar e com uma situação econômica em declínio, havia um descontentamento generalizado nas ruas e a sensação de que uma reviravolta estava por vir.

O objetivo das militâncias ainda era o de transformar ou mesmo substituir o capitalismo. O problema era que o arcabouço teórico da esquerda, que havia inspirado múltiplas gerações antes e depois das duas guerras mundiais, já não fornecia respostas suficientes para a situação atual. O sistema econômico e tecnológico tinha se tornado muito mais complexo do que quando aquelas obras tinham sido escritas. As antigas teorias não explicavam o fracasso dos regimes ditos comunistas, tanto a nível de apoio popular quanto a nível de prover um nível de vida satisfatório. Em contraste, havia o inexplicado sucesso estrondoso das democracias liberais no pós-guerra que, além de fornecer liberdade de expressão, trouxe melhorias substanciais para todas as classes sociais. Ademais, havia várias questões que passavam ao largo do tema central da esquerda: a luta de classes, como o equilíbrio ambiental, as relações humanas, a saúde física e mental da população, entre outras. 

Essa paralisação teórica continuou afetando as forças progressistas até o dia em que estas palavras foram escritas.

*

Embora impopular e praticamente inexistente no Brasil na época – principalmente na faculdade de Economia da UFRJ – a ideologia de direita estava se apresentando como uma alternativa ideológica inovadora. Seus novos defensores queriam levar o mundo a um estágio de desenvolvimento radicalmente avançado, parecido com o que se via em ficções científicas. Para conseguir isso acreditavam que se deveria deixar o terreno livre para o mercado; uma máquina irretocável, impessoal, apolítica e por isso extremamente dinâmica.

A frase que melhor definia sua visão era a da Margaret Thatcher: “a sociedade não existe.” Para eles, o egoísmo era a mola mestre do mundo. Se esquecessemos que o ser humano é um animal social e nos concentrassemos no “necessário” – sobreviver e ficar rico – estariamos livres para levar nossos talentos até o limite, sem impedimentos. Uma lei da selva benévola cuidaria para que cada um recebesse a porção merecida dependendo da sua capacidade e do seu esforço. Apostando na concorrência e na vitória da competência, todos sairiam ganhando já que todos dariam o melhor de si e obteríamos os melhores resultados possíveis. De quebra, nos veríamos livres da ineficácia dos Estados.

É claro que nessa corrida a maioria correria descalça enquanto uma minoria correria de Ferrari. As grandes corporações sairiam na frente e, sem ninguém para confrontá-las nem se preocupar com o bem comum, teriam liberdade completa. Imporiam os salários que entendessem, poluiriam o que quisessem, desalojariam, demitiriam e abusariam quem bem entendessem. Não haveria escolas públicas, hospitais públicos, políticas de desenvolvimento, ou qualquer outro esforço para o interesse da população em geral, apenas o mercado e a geração irrefreável de lucro. 

Em 1973, essa escola tinha tomado o poder na ditadura do Pinochet, no Chile, e nos anos 80 estava se espalhando como fogueira no dito mundo civilizado. Seus principais expoentes estavam sendo homenageados por governos e ganhando prêmios Nobel. Choques neoliberais estavam sendo introduzidos no Reino Unido e nos Estados Unidos enquanto regimes comunistas na Europa do Leste, o bloco soviético e o regime chinês se estavam sendo asfixiados econômicamente. Uma reviravolta parecida estava acontecendo no mundo acadêmico onde em breve as palavras socialismo, e principalmente comunismo, se tornariam como sinônimos de lepra, completamente rejeitados em faculdades “respeitáveis”.

Alem das grandes corporações e do mercado financeiro, agraciados com grandes reducões de impostos para se tornarem mais competitivos, a desregulação econômica agradaria a muitos nas classes médias. Com privatizações pipocando a torto e a direita fazendo as bolsas dispararem, muitos enriqueceram com isso. No Reino Unido, por exemplo, o governo vendeu conjuntos habitacionais e muitos dos antigos inquilinos conseguiram se tornar proprietários pela primeira vez em gerações.

Mesmo assim, pelos quatro cantos do planeta, a maioria da população foi sugada para dentro da pobreza. Países periféricos interessados em manter suas “vantagens comparativas” passaram a oferecer mão de obra com salários de fome como seu principal atrativo econômico às grandes corporações. Essa política criaria bolsas gigantescas de gente que não conseguia manter o seu sustento apesar de trabalhar o mais duro que podiam. Todos na ilusão de um dia ficarem ricos. Grande parte da população nos paises ocidentais veria seus empregos irem para recantos com salários mais “competitivos” no outro lado do mundo. Por outro lado, a diferença entre o que os executivos ganhavam e o que os escalões mais baixos ganhavam saltaria de 12 para 700 vezes. Com balanços positivos nas grandes corporações e suas ações subindo nas bolsas mas com o poder de compra muito reduzido devido aos arrochos salariais as economias neoliberais se acabariam se tornando menos competitivas que as economias mais planejadas como a russa, a chinesa e mesmo a Alemã. 

Conforme a verdade foi demonstrando que o dinamismo prometido pelos profetas do liberalismo era inexistente, a manipulação e até a fabricaçāo da realidade se tornariam cruciais. O principal inimigo do sistema se tornaria o pensamento crítico, nossos sonhos, nossa vontade de sermos livres da opressão do mercado, o índio nu na floresta que não sabia o que era dinheiro, a solidariedade a quem não trazia vantagem nenhuma e tudo mais o que não endeusasse o lucro privado. 

Para eles quem tinha que mudar éramos nós, não o sistema. Para nós, não havia nada de errado com ninguém, o que tinha que mudar era justamente o sistema. O conceito mais pernicioso do agora discurso oficial era a mentira de que nada poderia ser feito diferente. Tal como os indígenas brasileiros ensinados pelas missões evangelizadoras que seu mundo era errado e que para salvar suas almas precisavam aceitar o seu fim em prol do cristianismo e do mercantilismo por trás dele, os defensores do novo pensamento diziam que população tinha que se adaptar a Moloch ou desaparecer.

*

A Faculdade de Economia e Administração da UFRJ – a FEA – não era de esquerda própriamente dita. Sua linha era desenvolvimentista com conexão direta à CEPAL, Centro de Estudos Para a América Latina, erguida pelos governos democráticos no pós-guerra para achar soluções para o continente. Nossos professores mais influentes eram Keynesianos e defendiam uma aliança entre governo e capital privado para desenvolver o país. Os Estados Unidos tinham escolhido esse caminho nos anos 1930 para sair da recessão econômica através do New Deal implantado pelo presidente Roosevelt e era a que os aliados também adotaram para reerguer a Europa no pós-guerra com o plano Marshall. Para nossos professores o empresariado brasileiro era descapitalizado e despreparado demais para levar adiante um projeto de desenvolvimento e só um empurrão forte do Estado poderia, no jargão dos economistas, alavancar a economia brasileira.

Apesar de nunca ter apoiado a Revolução Cubana, esta escola se tornou um dos principais alvos da sua contrapartida criada pelo Departamento de Estado Norte Americano, a Escola das Américas. Seguidora fiel da Escola de Chicago e financiada por grupos interessados em assegurar seu predominio no continente, ela formaria vários ditadores e diversos personagens estadounidenses que teriam peso no futuro do continente. 

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Os militantes de esquerda viam nossa turma como burgueses alienados. Por outro lado, os estudantes sem interesse em política viam quem se interessava em militar por avanços progressistas como playboys perdidos tirando uma onda infantil de revolucionários. Esta turma, a grande maioria mesmo naquela época, focava em se tornar histórias de sucesso depois que se formassem. Sem dúvidas, era uma postura lógica no contexto de uma faculdade de primeira linha. Porém, eu não estava no momento certo, nem na faculdade certa, para adotá-la. A verdade é que assim que entrei para a aula introdutória e vi meus novos colegas e professores tive a sensação clara de que aquilo era uma contingência e não o início de uma carreira.

O curso de economia da UFRJ visava preparar quadros para agências de desenvolvimento do governo e para companhias estatais: BNDES, IPEA, Eletrobrás, Petrobrás entre outras. Depois que as aulas começaram, descobri que muitos professores eram fascinantes e inteligentíssimos, alguns sobreviventes dos anos de chumbo da ditadura. Os professores mais engajados nos viam como uma nova espécie de estudante: um dos primeiros contingentes livres das amarras dos militares. Os que haviam voltado recentemente do exílio, estavam entusiasmados por poder lecionar livremente em seu próprio país.

O lugar e o ambiente eram estimulantes e, por isso, resolvi ignorar os pensamentos negativos iniciais e dar uma chance ao curso. Não dava para comparar aquelas aulas com o que víamos nas fábricas de passar no vestibular. Quem sabe não tivesse tomado a decisão certa e viesse a gostar do curso?

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Tudo ia bem até que contraí uma hepatite em Mauá que me forçou a passar um mês e meio de cama. Aquela pausa marcaria o começo de uma reviravolta pessoal e, estranhamente, o início de uma reviravolta muito maior no país. A liberdade política estava garantida, as eleições diretas para presidente eram uma questão de tempo, porém uma era de inferno econômico estava despertando.

Era um acontecimento global; ao redor do planeta fundamentalistas religiosos cristãos, judeus e muçulmanos estavam desbancando a esquerda em termos de atrair a opinião pública. A AIDS estava se espalhando e Ronald Reagan e Margaret Thatcher estavam consolidando suas políticas conservadoras. Um ciclo neoliberal e careta estava iniciando um reinado de pelo menos quatro décadas.

Confinado à cama, me sentindo fraco, comendo e bebendo em pratos e copos separados para que minha infecção não se espalhasse em casa, presenciei o Fundo Monetário Internacional começar seu ataque ao Brasil. Representando as economias centrais ele decretou que dívidas contraidas em empréstimos concedidos a ditadores e antigos aliados – empréstimos realisados com fins políticos e, por isso, com facilidades especiais – eram agora uma ameaça à estabilidade mundial. As taxas de juros, agora muito mais altas, fizeram com que a dívida externa brasileira chegasse a níveis inimagináveis. As exigências do FMI e as condições para seu refinanciamento sufocaram não só a economia brasileira, mas também a economia de todos os outros países em situações parecidas.

A gestão de dívidas sempre foi uma das principais formas de subjugar. No Brasil, como de costume, a corda arrebentou para o lado dos mais fracos. O governo aumentou impostos e subiu a taxa de juros que, por sua vez, dificultou empréstimos e fez com que empresas fechassem ou diminuíssem os seus quadros de funcionários. Por outro lado, obrigado pelo FMI a cortar gastos, o governo também passou a demitir gente e a fazer menos contratos com companhias privadas. Quando essas fechavam as portas, engrossavam o exército de desempregados sem nenhuma forma de assistência social.

Devido à incompetência ou talvez à inexperiência com condições tão adversas, o próximo passo das autoridades foi apelar para a emissão de moeda para honrar suas obrigações internas e externas, um caminho certo para a inflação. A inflação, que em pouco tempo se tornou galopante, diminuia ainda mais o poder de compra da população. A crise foi se alastrando como uma dor de dentes piorando a cada dia.

Com uma média mensal entre vinte a trinta por cento durante os 15 anos seguintes, a inflação no Brasil chegou ao acumulado de 20.759.903.275.651 por cento, um recorde mundial absoluto. Para se ter uma ideia do tanto que a situação ficou feia, caso meu pai não tivesse resguardado seu patrimônio, pelo mesmo preço que havia comprado nosso confortável apartamento em Ipanema no boom da bolsa nos anos 1970, alguns anos depois só poderia ter comprado um cafezinho num boteco de esquina.

No entanto, na FEA, professores e alunos viam essa turbulência de uma maneira diferente. Acontece que o seu departamento de Economia estava na linha de frente da oposição às políticas governamentais muito antes da crise começar. Vários de nossos professores haviam dado o alerta sobre os perigos à frente. Muitos brasileiros acreditavam que aqueles acadêmicos poderiam ser a salvação para o país naquela bagunça. Por isso, eles se tornaram figuras públicas, aparecendo direto em entrevistas e debates na televisão, publicando livros e escrevendo artigos de página inteira para os principais jornais do país.

 

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