25/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Cada um tem o apresentador que merece. Sobre ser criança nos anos 70

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Comandando uma astronave
Rasgando o céu
Vou pisando em estrelas, constelações
Deixo longe o mundo aflito e a bomba H
Corpo livre no infinito eu vou
Na estrada do sol …”

 

Postei dia desses uma foto da Xuxa, de 1986, na TV Manchete, quando começou a trabalhar como apresentadora. Ainda fazendo sucesso como modelo, amargando o fracasso como atriz num filme (Amor estranho amor) em que interpretava uma prostituta que seduzia um menino de 12 anos, Xuxa resolveu apostar suas fichas como apresentadora de programa infantil. A história está aí, provando que sua intuição não falhou.

Ninguém, em lugar nenhum do mundo, acreditaria que uma modelo que usava roupas minúsculas, era símbolo sexual e tinha acabado de fazer um filme em que interpretava uma pedófila poderia virar carro-chefe de programas voltados para crianças. A não ser alguém que conhecesse a história da TV brasileira.

A precursora nessa linha foi nada mais, nada menos que a exuberante Virgínia Lane, vedete do teatro rebolado. Em 1955, trajada com roupas sensuais e orelhinhas de coelho, apresentava o programa O Coelhinho, na TV Tupi, voltado para o público infantil. Era a alegria das crianças, e provavelmente dos marmanjos, afinal, além de belíssima, era dona das pernas mais bonitas do Brasil e o pesadelo das donas da casa, que achavam aquele trajar um descabimento. Meu amigo Nélio foi vítima dessa má vontade para com a sassaricante. Estava num show de auditório e Virgínia pegou no seu queixinho. Apaixonou-se. Perdidamente. A mãe não deixou o romance seguir em frente, afinal ele tinha 4 anos e a apresentadora, 36. O primeiro amor, porém, a gente nunca esquece.

A roupa da Xuxa no programa de 1986 seria hoje um descalabro. Um decote até o umbigo, com seios quase desnudos, não era propriamente indicado para um programa infantil. Para nós, que fomos adolescentes na década de 80, assistindo às duas da tarde o Cassino do Chacrinha, com suas chacretes voluptuosas de collant fazendo danças sensuais no palco, vendo modelos como Monique Evans com um ínfimo fio dental na praia, nada de novo no front. Eram outros tempos. Fumava-se no ônibus, na sala de aula, poucos usavam cinto de segurança e vestíamos saias balonê com scarpins, o que por si só mereceria cadeia por falta de senso estético. Ah esses anos 80…

O fato é que Xuxa fez escola. No seu rastro vieram outras loiras que faziam brincadeiras com as crianças, apresentavam desenhos animados e exibiam sua forma física nas telas de televisão.

Sou do tempo que, ao anunciar o programa que seria passado, aparecia um documento de liberação na TV que indicava a idade mínima para assisti-lo e, o principal, que não era censurado, assinado pelo então Ministro da Justiça Armando Falcão. Homem de triste memória, fazia parte do governo nefasto da ditadura militar linha duríssima, pior que Golbery. Legou-nos, porém, duas coisas importantes. Sempre que, por um motivo ou por outro, você utilizar a expressão “Nada a declarar”, saiba que foi ele que a cunhou, é da sua lavra. A outra merece uma narração e é uma comprovação de que D’us é roteirista e, às vezes, mistura de forma inacreditável os núcleos das novelas. Digo isso e posso provar: Falcão, cearense, estudava Direito no Rio de Janeiro. Morava numa república de estudantes. Foi na mesma época que o grande Luiz Gonzaga largou o exército, saiu de Pernambuco e migrou para o Rio, no intuito de fazer carreira musical. Foi trabalhar na área do mangue, no baixo meretrício, em meio a rufiões, cafetinas e prostitutas. Luiz dedilhava sua sanfona, tocava milongas, tangos, foxtrotes, músicas que animavam o cabaré e depois passava um pires ou o chapéu.

Com o tempo, passou a frequentar a república dos estudantes, estava numa situação financeira difícil. Lá ele cantava, tocava e o pires corria. Até que o jovem Armando virou para ele e perguntou: “Por que você, tão talentoso, não toca o nosso forró de pé de serra? É por aí que você tem que seguir a sua carreira!”. Essa força foi determinante para que Gonzagão abraçasse seu Nordeste, definisse sua música, voltasse para as suas raízes.

Espero que, no julgamento final desse senhor, isso tenha sido levado em conta.

Nós, os nascidos nos anos 1970, fomos privados de loiras lânguidas e ninfetas dançantes ajudantes de palco. Engana-se, porém, quem pensa que, só por ter sido o período mais feroz da ditadura, não tivemos nosso animador infantil! Claro que a infância não passaria incólume às transformações de 64. Eles criaram seu herói, e a saudosa TV Tupi, entre 1966 e 1979, levou ao ar o programa Clube do Capitão Aza. O dono do clube trajava um uniforme da aeronáutica, usava um capacete com duas asas e falava de dentro de uma nave espacial antes de virar modinha (Chupa Xuxa!). Como tudo naqueles tempos, nada era por acaso. O linguajar desse herói era inspirado no militarismo. Capitão Aza (que recebeu esse nome em homenagem ao capitão aviador Azambuja, herói da Força Expedicionária Brasileira – FEB) se proclamava Capitão Chefe das Forças Armadas Infantis.

Hoje, com o distanciamento necessário, vejo que a intenção do programa era melhorar a imagem das Forças Armadas para as crianças, valendo-se das inovações da mídia de massa ao trazer novos produtos culturais importados da TV norte-americana. Desejava-se construir no imaginário infantil um consenso entre valores conservadores e autoritários.

Cercado por uma boa equipe, tendo Oduvaldo Vianna Fiho, o Vianinha, como diretor, com uma linda canção de abertura (Sideral) composta por Tibério Gaspar, autor de Sá Marina, imortalizada na voz de Simonal e Durval Ferreira, que, além de tocar com Sergio Mendes, teve suas músicas gravadas por Sarah Vaughan, Claudete Soares e Leny Andrade, pegava a criançada de jeito. Não sei se por influência dos meus pais, que nutriam grande antipatia pelo personagem, por perceberem o que tinha por trás da programação, ou por feeling mesmo, nunca fui fã do apresentador. No entanto, amava os desenhos e seriados veiculados pelo programa. Turma da Pantera Cor-de-Rosa, Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, A Corrida Maluca, Speed Racer, Mr. Magoo e séries antológicas que fazem parte da minha memória afetiva: Jeannie é um gênio e A feiticeira.

O Capitão Aza costumava visitar as escolas. Levava sempre com ele um bombeiro uniformizado, um policial militar e um ex-membro da FEB, para dar lições de cidadania. Um dia, esteve na minha. Lembro-me de nós todos colocados em fila indiana, em blocos separados. Era uma escola que ia do Maternal à Alfabetização. Vimos o helicóptero pousando, um verdadeiro espetáculo. Sabe-se lá por que, nesse dia ele quebrou o protocolo e apareceu com dois palhaços. Os profissionais circenses que me perdoem, mas tenho fobia a eles que se arrasta até os dias de hoje. Na malandragem dos meus 5 anos, inventei uma dor de barriga e fiquei no banheiro até o evento acabar. Se já não gostava dele, associá-lo a dois palhaços foi um pesadelo. E foi assim que, após ver um clipe no Fantástico com um ser andrógino colorido e cheio de penas, meu ídolo supremo passou a ser Ney Matogrosso acompanhado pelos Secos e Molhados. Sim, existe sabedoria no mundo infantil.

Ah, já ia esquecendo. O ator que fazia o Capitão Aza, Wilson Vianna, era delegado da polícia civil.

Ser criança na década de 70 era isso. Somos sobreviventes. A andar soltos nos bagageiros de carros como Caravan e Belina, geralmente guiados por um adulto embriagado e sem cinto de segurança, a não morrer sufocados por uma bala soft e a ter, como herói infantil, um meganha.

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