18/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Brutalidade jardim

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Brutalidade jardim é uma frase de Oswald de Andrade sobre o Brasil, no poema “Indiferença”. Essa expressão é um paradoxo, pela oposição entre as palavras brutalidade e jardim. Paradoxo é uma figura de pensamento baseada na contradição, sem nexo, mas expõe uma ideia coerente baseada numa verdade. É uma palavra de origem grega, em que “para” é contrário, oposto, e “doxa” é opinião. Paradoxo é opinião contrária, importante em psicologia, filosofia, linguística, matemática, retórica e física. Paradoxo é central na psicanálise, pois nada mais paradoxal que o inconsciente, onde os opostos, não se excluem.
Brutalidade jardim é o jardim, a leveza, flores, plantas, árvores, que contrasta com o peso da brutalidade. A palavra “bruto” tem vários sentidos, como crueldade, estupidez, o oposto da delicadeza de um jardim. Portanto, há mais de um século, o país foi definido, e agora vai sendo aprendido. Hoje há muitas perguntas perplexas diante do maior trauma de nossa História republicana. O governo não seguiu as recomendações do mundo todo contra a pandemia. Cúmplice do vírus que infecta milhões, chegará neste mês a 300 mil mortos. Os poderes e parte do povo colaboraram com aglomerações. Muito do que ocorre hoje é produto dos contágios em festas, praia e carnaval. O presidente promoveu comícios sem máscara, desprezou o covid 19 e agora se sente injustiçado ao ser condenado. Qual é mesmo a história de uma família tirânica, sem planos construtivos para o País? Os Poderes, armados ou não, estão indiferentes com a maldade sofrida pelo povo? Os hospitais estão colapsados, diminuem até os medicamentos essenciais. O Brasil vem sendo chamado no exterior de cemitério do mundo.
Brutalidade jardim foi retomada pelo poeta Torquato Neto na Tropicália com o poema “Geleia Geral”, musicado por Gilberto Gil. Os últimos quatro versos são: “Alguém que chora por mim/Um carnaval de verdade/Hospitaleira verdade/ Brutalidade jardim”. O País viveu a escravidão durante 350 anos, à ditadura militar de 1964-85. Ainda é um verdadeiro inferno a brutalidade contra os negros e os índios, e a crescente desigualdade social.
No sexto círculo do Inferno de “A Divina Comédia” Dante escreveu: “Mais que saber, me é grato duvidar”. O duvidar aqui é a expressão da pergunta simbolizada num ponto de interrogação no final da frase. Há gente que despreza a interrogação, vive da certeza, frio, sem empatia diante das mortes, ironiza os choros dos enlutados.
Brutalidade jardim é uma definição deste país, onde os poderes negacionistas atacam as ciências e são contra a melhor medicina. Até aqui não houve uma programa de saúde na pandemia que, realmente, priorizasse as vacinas. Pergunto: onde estão as forças de segurança na guerra contra o vírus, que já matou várias vezes o que todas as guerras da nossa História mataram? O Brasil elegeu um líder com impulsos destrutivos, e a crueldade anunciada no elogio à tortura e ao assassinato de trinta mil.
Brutalidade jardim poderia se transformar em um jardim do Burle Marx, quando foi o país do futuro. O país jardim é um desejo, o sonho de uma democracia social, um país que priorize a vida e a natureza. O sonho pode ser um compromisso no luto de hoje, na luta pela nossa humanidade amanhã.

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