23/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Brasil em tempo sombrio

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No capítulo XI da “Odisséia” Odisseu baixa até o Hades para se aconselhar com Tirésias e encontra o herói Aquiles. Logo elogia o maior guerreiro grego e diz que ele não pode se queixar da morte pela fama que fez. E logo escutou:“Ora não venhas, solerte Odisseu, consolar-me da morte”. A morte é inevitável mas sempre é sofrida pela perda, há sempre um luto a ser realizado. A morte une os amigos, os vizinhos, os familiares em torno do ritual de enterrar seu amores. O sentimento de ser insuportável a ausência, o perder de vista inquietante do ser amado, pois não é fácil amar o invisível. A Psicanálise define o luto como trabalho, o que é uma redução da realidade, pois há uma distância entre a palavra trabalho e a dolorosa vivência do enlutado.

O ritual funerário marca uma divisão entre os homens e os animais, uma importante evolução da capacidade simbólica do hommo sapiens. Os rituais diante da morte ocorrem no mundo há mais de cem mil anos e os que não podem homenagear seus mortos sofrem feridas difíceis de cicatrizar. Muitos que as ditaduras militares mataram, e sumiram com seus corpos, não tiveram os rituais de despedida dos familiares, logo são ferimentos sociais traumáticos.

Diariamente hoje a morte está presente no Brasil, que tem um saldo de três milhões de contaminados e cem mil mortos. É a parte mais visível de um problema mais amplo: a desigualdade social, que fez a doença contaminar e matar mais pobres do que ricos, junto a negação da pandemia, que foi fator decisivo para a quantidade de mortos. A Universidade Federal de Pelotas,fez a maior pesquisa sobre coronavírus no Brasil. Os estudos epidemiológicos indicam que a pouca testagem e as flexibilizações promovidas pelos governos federal, estaduais e municipais são os vilões de tantas mortes.

No pior momento o pior governo, pois um líder bufão, sempre expressou indiferença, e desprezo pelos mortos e suas famílias. Tudo fez para não unir o povo na luta contra a pandemia: brigou com os governadores, prefeitos, demitindo dois médicos como ministros de saúde e indicou um general sem qualquer conhecimento de saúde para ministro interino. Desprezar, descuidar, ser indiferente aos brasileiros que sofrem e morrem resultou na acusação de genocida pelo ministro Gilmar Mendes do Superior Tribunal Federal. Desde o início da pandemia Jair Bolsonaro dizia que era uma gripezinha, e que havia uma histeria. Ele fez diagnóstico de histeria diante a maior tragédia do povo brasileiro, e por isso foi diagnosticado como psicopata. Choca sua insensibilidade, frieza, a falta de empatia, diante dos mortos. Não sei ao certo seu diagnóstico, mas sua crueldade é inegável.

Quando os mortos do covid 19 eram 5 mil, no dia 28 de abril de 2020, ele foi brincar de tiro. Quando o Brasil chegou aos 10 mil mortos, ele foi passear de jet ski no Lago Paranoá. Quando o país superou os 25 mil óbitos ele andou a cavalo no meio de seus seguidores. Depois foram 30 mil brasileiros mortos e quando chegou aos 40 mil mortos desconfiou dos hospitais e disse para seus seguidores invadirem:“Arranja uma maneira de entrar e filmar”. Acusou os hospitais, suas direções, os médicos de mentirosos! Aí o humorista Aroeira o pintou como nazista e foi processado, mas muitos humoristas seguiram seu exemplo.

Agora o presidente não diz mais ser uma gripezinha, mas o que ele representa na História do Brasil é a questão. Entre as tentativas de resposta sobre o que é nosso país, temos agora o Gregório Duvivier na sua última Gregnews: “Ideologia de General”. O humorista fez um breve retrato histórico do país desde a escravidão, que já vi três vezes, e está no youtube. O humor não é só um dom ou virtude é uma vacina contra o desespero, é uma visão de mundo.

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