09/03/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Alamanda amarela

3 min read
Sempre gostei de árvores, sou dos tempos em que as crianças subiam em árvores. Era emocionante ver o mundo de cima, viver um mundo imaginário de alegria. Olhar e não ser visto, com uma visão mais ampla da rua, das casas, pessoas e cachorros. Às vezes, escutava algum chato dizer um “desce daí menino, vais cair”. Tive queda sim, mas não de árvore. Entretanto, não prestava atenção nas plantas, não era comum nas casas, a não ser na casa da madrinha. Descobri as plantas, as flores, quando comecei a trocar olhares com uma alamanda amarela, na casa de Petrópolis. As flores estavam bem na entrada, portanto, ao sair e voltar para casa, era ela quem sempre estava lá, irradiando beleza nas separações. Era um arbusto antigo, tinha um caule espesso, que floria da primavera ao inverno.
Allamanda cathartica é o nome científico da alamanda que é original do Brasil. Há diversas cores: roxa, branca, rosa, mas a mais comum é a cor amarela. A relação com as plantas, assim como com os animais, são experiências de vida, de acompanhar o crescimento, os diferentes períodos que passam. Cuidar de plantas não é difícil, requer atenção, cuidado com a água, nem muita, nem pouca, inverno e verão são diferentes, e tem os adubos, claro. Gosto de passar a mão nelas, como se fosse um carinho. Entrar numa casa com plantas, ou em outros espaços, gera boas emoções. Já vi plantas em áreas de serviço minúsculas, com floreiras de temperos que dão odores e temperam os amores.
Após uns quatro anos nessa casa meio mágica, ocorreu um desastre. Um dia teve uma forte tempestade e quebrou o tronco da velha alamanda, e vê-la no chão foi doloroso. Busquei ver se poderia nascer algo do que sobrou do arbusto, mas o tronco quebrou quase na altura da terra, tinha apodrecido. Ou sofreu algum ataque ou morreu porque era a hora mesmo. Não ter mais as flores amarelas na chegada e na saída de casa não seria agradável, e então busquei uma solução. No dia seguinte à morte da alamanda, fui numa floricultura para comprar duas mudas para plantar em dois canteiros. Imaginei que após um ou dois anos as plantas cresceriam e se uniriam. Pelas dúvidas, plantei duas, se uma tivesse problema, teria a outra, mas felizmente ambas estão firmes, fortes e florindo até hoje. Guimarães Rosa exaltou as flores e as plantas. “…esse jardim é o meu?” “Não. O seu virá, quando amar” ou “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam”.
De todas as cores de alamanda, logo casei com a amarela, um amor à primeira vista. Muitas possibilidades, mas uma tem a ver com um estribilho aprendido de piá. “Quando eu morrer, não quero choro, nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela”. Tardei em saber que a música é a “Fita Amarela” de Noel Rosa e quem cantava era Nelson Gonçalves. Memorizei as frases sem entender, mas gostei da rima, da música em que o amor foi aclamado. Talvez quisesse saber quem seria Ela, a da fita amarela, que só o seu nome gravado na fita, daria vivacidade à um homem. Ela foi o elo de união entre a casa, a árvore, e a alamanda amarela.

Mais Histórias

Deixe uma resposta