16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

A máquina do tempo

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Se a máquina do tempo tivesse saído das páginas do romance de H. G. Wells, de 1895, certamente o número de mortos pela Covid 19 no Brasil seria hoje bem menor. Estaríamos como nossos antepassados da Baixa Idade Média, lá pelos idos de 1348, confinados para limitar os efeitos da Peste Negra.

Em 2021, todos os países que praticaram seriamente o isolamento social têm menos mortes a lamentar. Foi a única medida, paralelamente às ações básicas de higiene, que funcionou até aqui na contenção da pandemia do coronavírus, como há 670 anos na Idade Média contra a Peste Negra: quarentenas, confinamentos, toques de recolher, uso de máscaras e álcool gel. Como escreveu nas redes sociais meu amigo Paulo Markun: ” Para quem acredita que há outra maneira de enfrentar a pandemia, além do que recomenda a ciência. Portugal já tem a mais baixa taxa de contaminação da Europa. Resultado do confinamento e do uso de máscaras – 92% dos portugueses usam. Inclusive o presidente, aqui, no supermercado.”

A grande diferença entre a Idade Média e o século 21 é que contamos com vacinas.

A humanidade desenvolveu em dez meses — muitíssimo menos que as previsões mais otimistas — vacinas contra a covid-19, algumas delas usando a tecnologia do RNA-mensageiro, de grande eficácia e que promete ser revolucionária no tratamento desta e de outras patologias.

Apesar do feito científico, estamos nesse momento numa encruzilhada, numa corrida contra o tempo entre as novas vacinas e as novas variantes do vírus, que por enquanto levam vantagem. Sabemos por exemplo que a vacina da Oxford/Astrazeneca tem eficácia reduzida contra a variante sul-africana e que quanto mais variantes aparecerem, maior a probabilidade delas escaparem aos imunizantes.

Ora, vale a pena notar que as novas variantes surgiram todas em países em que se deixou o vírus circular livremente: não é por acaso que se fala de variante britânica, brasileira e sul-africana, mas é impossível falar-se de variante neozelandesa, porque na Nova Zelândia e em outros países que optaram por estratégias de erradicação não há propagação do vírus suficiente para que apareçam mutações.

Daí a necessidade imperiosa e urgente de se confinar agora, com duplo objetivo: baixar a curva da pandemia e tentar evitar que uma variante mais letal e mais infecciosa – a britânica por exemplo – se torne dominante.

O tempo é curto e a necessidade de vacinar a população mundial, até chegar à imunidade de rebanho, premente.

Cada morte por covid-19 agora é uma morte que poderia ser evitada daqui a alguns meses, e isso nos deveria levar a ser mais exigentes com relação ao confinamento, inclusive por razões econômicas.

Durante a primeira onda não se sabia se seria possível atingir a imunidade de grupo, a questão então era se valeria a pena tentar chegar lá por via natural, deixando correr o ritmo das infeções, sacrificando milhões de vidas em nome da economia, ou salvar o máximo de vidas deixando as preocupações com a economia para depois. A conquista das vacinas num prazo tão rápido mudou completamente o quadro. O que importa é preparar a retomada da economia para depois da imunidade de rebanho e salvar o máximo de vidas agora. A palavra de ordem  é investir na aceleração da vacinação para que possamos ver o fim do túnel.

O problema é que os populistas, como o capitão, insistem em apostar no pior, fascinados que são pela morte. A tal ponto que o  procurador-geral da República, o bolsominion Augusto Aras, apresentou ao Supremo nove investigações sobre condutas supostamente criminosas de Jair Bolsonaro na administração da pandemia: no colapso dos hospitais nos estados do Amazonas e Pará, no incentivo para apoiadores invadirem hospitais públicos, no desrespeito das medidas de combate ao coronavírus ditadas pela OMS, na presença sem máscara em uma manifestação em Brasília, na conversa que teve, também sem máscara, com jornalistas, após ter contraído a Covid-19, ou ainda ao se tornar garoto propaganda de um medicamento – a cloroquina – que além de não ter nenhum efeito positivo no combate à Covid 19, pode causar efeitos secundários gravíssimos e até levar à morte.

Todos os países que não aplicarem uma política sanitária séria e estrita neste momento chave da pandemia estarão condenados a pagar um preço exorbitante num futuro muito próximo. A começar pelo Brasil, pois como escreveu o editorialista do Washington Post, “Entre líderes globais que minimizam o coronavírus, Bolsonaro é o pior”.

Amanhã, se a situação não mudar radicalmente, o país acordará com algumas centenas de milhares de vítimas da Covid a mais e um ditador no Palácio do Planalto.

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