19/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

A dança da esperança

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A palavra esperança é capaz de transpor a página ao estimular a vibrante imaginação. Esperanças, ilusões e desilusões se desenvolvem tanto na vida privada como na vida pública. Um exemplo é o dos imigrantes que sonharam com novas terras para viver, e com sacrifícios viajaram animados com a mudança de ares, em busca de outro mundo. O mundo em geral é composto de mudanças, são movimentos no tempo e no espaço, em que os dias parecem iguais. Se o mundo progride, a esperança dança alegremente, mas a vida oscila entre o entusiasmo e a apatia, a fé e o desânimo, a graça e a desgraça.

Quando milhões de pessoas atacam a cultura, desprezam a vida, é um choque, mas é porque a gente esquece do poder da crueldade no mundo. A crueldade é humana, e ela se revela pela falta de empatia, ao estimular a violência e a divisão das famílias e de um povo. O mundo é destrutivo e criativo, a vida é tecida de altos e baixos, por isso a esperança pode dançar ou não. Quando os tempos são de elogios à ignorância, de proteção ao estuprador e agressividade à vítima, são tempos torturantes.

Não faltam motivos para os tristonhos dizerem que a esperança não dança mais, são os amados que perderam o norte, diante das trevas. Uma letra só separa as palavras amados de armados, a letra “r”, “r” de raiva, a raiva dos armados a serviço não da pátria, mas da elite brasileira responsável por esse desgoverno que. Só dez pessoas hoje são os principais responsáveis pela devastação da Amazônia, com lucros incalculáveis e destruições alarmantes.

Entre as histórias sobre a esperança e a dignidade, lembro essa: Um velho, bem velhinho, estava plantando uma árvore quando um homem viu e disse: ‘Que bobagem você está fazendo. Essa é uma árvore que você não verá crescer, pois ela tardará muitos anos para crescer e você vai morrer antes’. O velhinho então disse calmamente: ‘Quando nasci o mundo já tinha árvores e aproveitei-as, logo, hoje planto para os que vão nascer’. Convém seguir plantando, dançando com a esperança, mesmo que seja noite, com a dignidade desse velho sábio.
As paixões movem o mundo, movem para o melhor, como são os caminhos da liberdade e da fraternidade, mas as paixões também movem para o pior do ser humano.

Quando ocorre o pior na sociedade, a esperança diminui, fica atordoada, mas um dia se recupera e volta ao baile da vida. Convém repetir o momento em que Sartre, já cego e próximo da morte, foi perguntado se ainda tinha esperança na humanidade. Disse: ‘Sim, mas a esperança precisa ser construída’. Portanto, a questão é como construir, criar caminhos para melhorar a vida, tanto a pessoal como a social. E o primeiro passo é a paciência, o que nunca é fácil, ao contrário, pois o imediatismo é um obstáculo a ser contornado.

Para construir a esperança é necessário o conhecimento sobre a psique, pois não é fácil mudar. O ser humano tem uma tendência a repetir seus comportamentos, tem uma compulsão à repetição. Já a nível social é diferente e mais difícil mudar, pois os poderosos, que já experimentaram o poder quase absoluto, ambicionam lucrar mais e mais, e aí se transformam em inimigos da democracia. Já ocorreu em vários países, e hoje retornou aqui com a fúria dos armados.

Construir imaginando o amanhã é o sonho amoroso é manter o entusiasmo na dança da esperança. Ninguém se cura de si próprio, mas estar próximos fortalece a manutenção da luta diante a elite perversa. Dançar em tempos sombrios no meio do terror, alivia o peso da existência e fortalece a dignidade. O gigante deitado em berço esplendido irá se erguer apesar da brutalidade das armas.

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