20/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

A cultura do trauma

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Num momento distante do passado começou o trauma da morte. Trauma decorrente do desamparo frente à trágica separação, e assim nasce a cultura no primeiro ritual funerário. Aliás, a vida social é marcada por rituais, quando o animal homem não é mais abandonado na natureza, tendo seu cadáver preservado. O ritual nasce como um meio de diminuir o desamparo, que é o modelo da situação traumática. O trauma é a expressão de um choque, angústia automática, para a qual não se está preparado. O ano de 2020 passará à História como o ano mais traumático dos últimos cem anos no país. É o maior desamparo social desde a crueldade da escravidão.
São dois os traumas: o primeiro é conviver com a pior pandemia do último século, com 1.551.214 mortes no mundo até essa semana. O segundo trauma é a forma como o governo expôs a população ao COVID-19. Desde março vem sendo ignorado o poder mortífero do vírus com palavras como “gripezinha” e o Presidente sempre atacando a máscara, e o distanciamento. A saúde de um povo foi entregue a um grupo sem conhecimentos de como combater a pandemia. Agora há uma logística do fracasso no plano de vacinação, que já devia ter um calendário e ser obrigatória. Aliás, é assustador o silêncio das instituições médicas na defesa da saúde (e o juramento de Hipócrates?) quando o Brasil se aproxima dos duzentos mil mortos. O País enlouqueceu sob o comando de especialistas em mortes e mortificações. A nova prova da loucura é que foi zerada a alíquota da importação de armas e pistolas.
A palavra trauma tem origem grega e significa ferida, ferimento, é uma expressão da medicina que Freud transpôs para o campo do psíquico. Trauma é um choque violento, uma ruptura na alma, sendo a resposta a um acontecimento agressivo, surpreendente. Há um primeiro momento do trauma e um segundo momento, gerando sofrimentos, dores, pesadelos e também sintomas. O trauma e a noção do traumatismo crescem na obra de Freud após a Primeira Guerra Mundial. Será aí que o desamparo adquire maior importância, pois ele é o modelo da situação traumática que gera angústias. Diante dos traumas são indispensáveis os amores para manter algum equilíbrio; já o tempo ajuda a cicatrizar as feridas. Indispensáveis são as artes que tanto tem um poder terapêutico como aliviam o peso da existência ao revelarem belezas desconhecidas.
O perigo do trauma decorre da tensão gerada por um afluxo de excitações que faz o “EU” sentir-se ameaçado. Ocorre uma angústia abrupta, não ocorreu um sinal ao menos, e há uma reação tanto de origem interna como externa. E, por isso a pessoa se sente incapaz de dominar as excitações. O desamparo psíquico é a contrapartida do desamparo biológico na qual o bebê nasce. Ao longo da vida há vivências de desamparo por mortes, separações e agora na pandemia. Neste ano vivemos uma ameaça de doença e morte, o povo brasileiro está desprotegido no combate a pandemia. O governo é indiferente aos sofrimentos ( com a cumplicidade dos Poderes) e ainda debocha do povo ao chamá-lo de “maricas”.
Estimulado pelo exemplo do Presidente e por falta de leis que proíbam as aglomerações, a pandemia volta a crescer. E são os mais pobres que mais sofrem na desigualdade social que tem aumentado. Nas pessoas próximas escuto reações de evitar o total isolamento mantendo as pontes sociais. Já integrar a resistência à crueldade gera dignidade nessa longa noite de pesadelos. Diante os traumas é preciso aumentar os conhecimentos e conviver com a graça e a beleza da poesia. Aliás, a poesia e o humor formam um par que alivia o desamparo da nossa humanidade.

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