23/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Não é só esporte

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O autoritarismo emburrece a sociedade (Reinaldo, ex-atacante do Atlético Mineiro e da seleção brasileira)

Chegou a haver algum expectativa. Os mais otimistas acreditaram que os jogadores da seleção brasileira de futebol abandonariam a tradicional alienação e se recusariam a jogar a Copa América. No final, deu o esperado. Divulgaram um documento frouxo, covarde, dizendo ter uma “missão a cumprir”. Vão disputar o torneio, levando água ao moinho bolsonarista, interessado em desviar a atenção do público dos acontecimentos que derretem a popularidade do maníaco chefe. O jogador Marquinhos chegou a dizer que “se alguém quiser se posicionar politicamente, que o faça em casa”. Como se a atitude que tomaram não fosse política. É a noção medíocre, tosca, ignorante, de achar que só se faz política nos partidos e espaços institucionais.

Ao comentar o posicionamento dos jogadores, Walter Casagrande, um dos líderes históricos da Democracia Corintiana, disse que “essa é a geração de jogadores de futebol mais alienada que eu já vi desde os anos 1980”. Não sei quais foram os critérios do Casão para chegar a essa conclusão, mas a verdade é que atletas, técnicos e dirigentes que assumem, publicamente, posições políticas sempre foram exceções no Brasil. E não apenas em nosso país. Os que o fizeram acabaram, não raro, punidos e marginalizados.

Façam um pequeno esforço e tentem se lembrar dos “engajados”. Virão os inevitáveis Afonsinho, Reinaldo, Sócrates, Vladimir, João Saldanha, Tostão. O ambiente é tão rarefeito que os bolsonaristas andam chamando o Tite, logo ele, de “comunista”. Esporte e sociedade são entidades siamesas. Num espaço social onde reina o jeitinho, o meu pirão primeiro nas camadas privilegiadas, o salve-se quem puder entre os explorados, consolidou-se a cultura do individualismo. Aqui, ao contrário de Argentina e Uruguai, jamais houve greve de jogadores de futebol, em defesa, por exemplo, do direito de receber salários em dia. O que se vê entre os famosos é ostentação de riqueza, distanciamento da torcida, reprodução da visão de mundo da elite econômica. Sociedade? Interesses coletivos? Ora, vão plantar batatas.

Em 2010, o jornalista Alberto Dines viajou a Montevidéu para entrevistar o escritor Eduardo Galeano. Estava em curso a Copa do Mundo na África do Sul, e a conversa, claro, se concentrou no futebol. Durante as partidas, Galeano, fanático declarado pelo esporte, colocava um pequeno cartaz no portão de casa onde se lia “cerrado por fútbol”. Era o equivalente ao “cuidado com o cachorro”, que espantava indesejáveis.

Entre as histórias, Galeano contou que Maradona tinha tido a ideia de se criar um Sindicato Internacional de Jogadores. Seria um contraponto ao poder incontrolável da cartolagem, que tem gerado sucessivos escândalos de corrupção. A iniciativa não prosperou.

Conversa vai, conversa vem, Galeano lembrou que Obdúlio Varela, capitão da Celeste que venceu a Copa de 1950, foi a principal liderança de uma greve geral dos jogadores uruguaios, em 1949. A paralisação durou sete meses, a maior de que se tem notícia no mundinho das quatro linhas, com amplo apoio da sociedade uruguaia, que avalizou a justiça da reivindicação boleira: reconhecimento do sindicato dos atletas como representante de classe. A greve foi vitoriosa. No Brasil, até hoje não há um sindicato que represente os jogadores. Movimentos como o Bom Senso têm baixa adesão dos atletas e, em geral, são ridicularizados ou sabotados pela maior parte da imprensa. Continuamos atravessando a avenida como o Bloco do Eu Sozinho.

Será que a ética está condenada a entrar no estádio sempre pela porta dos fundos? Creio que mudanças reais, consistentes, só virão quando as sociedades tiverem valores mais fraternos, menos ególatras. O futebol é subproduto dos valores hegemônicos. Vou contar, então, duas pequenas histórias, que dão esperança. Não estamos condenados a repetir, para sempre, os mesmos modelos.

Viña del Mar, Copa do Mundo de 1962. Jogam Brasil e Tcheco-Eslováquia na primeira etapa do torneio. Vinte e cinco minutos do primeiro tempo. Pelé distende a virilha, contusão grave. Como à época não havia substituição, ele fica em campo apenas fazendo número. Masopust, capitão do time tcheco, percebe o drama e ordena a Lala, marcador de Pelé, que apenas o cerque, sem assediá-lo ou tocá-lo. Pelé recebe um passe de Zito, Lala o acompanha à distância. Nosso craque chuta a bola para fora de campo, sem mais condições de continuar em pé. É amparado por Masopust que o ajuda a ir para o vestiário. A torcida percebe aquela demonstração extraordinária de cavalheirismo e respeito, irrompe em aplausos.

Copenhague, 2003. Jogam Irã e Dinamarca. Os iranianos venciam por um a zero. No finzinho da partida, um zagueiro iraniano ouve um apito e segura a bola com as mãos dentro de sua grande área. O juiz marca imediatamente o penalty. Tinha sido um torcedor que apitara. Discute daqui, protesta dali, o juiz foi inflexível. O capitão dinamarquês, Morten Wieghorst, coloca a bola na chamada marca fatal e … chuta de propósito para fora. Tinha senso de justiça!

Abraço. E coragem.

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